
O ETERNO
REI
DO
CANGAÇO
Vinte
e oito de julho de 1938. Na Grota do Angico, região de Sergipe próxima às
margens do Rio São Francisco, uma emboscada histórica ocorria. Quarenta e
oito homens da polícia de Alagoas atacaram, durante a madrugada, o acampamento
de 35 cangaceiros, matando 11 pessoas do grupo. Em 31 de julho, o jornal O
Estado de S. Paulo publicava a seguinte manchete: O combate que exterminou
o bandoleiro “Lampeão”:
O temível cangaceiro tombou fulminado por uma rajada na cabeça. Era o
fim trágico do rei do Cangaço nordestino.
Sessenta e oito anos mais tarde, Virgulino Ferreira da Silva e seu bando são novamente destaque na mídia. Alvo da pesquisa de quase seis anos da historiadora e curadora francesa Èlise Jasmin, a vida desse complexo personagem foi transformada no livro Lampião, Senhor do Sertão. Vida e Morte de um Cangaceiro, lançado no Brasil pela editora EDUSP, e na exposição de fotos Cangaceiros, que permanece até o dia 4 de março no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo (www.mis.sp.gov.br).
Exibido na Maison de l’ Amérique Latine, em Paris, no final de 2006, e em Montpellier, Sul da França, durante o Ano do Brasil na França, o acervo fotográfico, composto por 86 obras pertencentes a diversos colecionadores – atravessou fronteiras para conquistar os franceses. Imagens históricas, que retratam parte do universo cultural do Sertão Nordestino, mostram Lampião diante do seu bando, ao lado da companheira, Maria Bonita; as decapitações encomendadas pelos seus adversários, além de jóias, armas e livretos de literatura de cordel.
Èlise explica que “Lampião foi o primeiro cangaceiro a participar da construção do seu personagem e do seu mito, apropriando-se da Imprensa, da fotografia, da literatura e do cinema para essa encenação. Deixou-se entrevistar e fotografar, insistindo para que o material fosse divulgado na imprensa brasileira ou distribuído entre a população do sertão”.
Não há dúvida de que o objetivo do maior cangaceiro brasileiro deu certo. Quase setenta anos após a sua morte, o personagem ainda mexe com o imaginário coletivo, servindo de tema para poemas de cordel, canções, filmes, documentários, minisséries de TV e livros. De acordo com a historiadora francesa, sob o reinado de Lampião (1926 a 1938), os cangaceiros foram os bandidos mais procurados pelo governo brasileiro. Em contrapartida, exibiam-se com freqüência, desafiando o poder e construindo sua lenda. “Eles foram os primeiros bandidos a dramatizar suas vidas. Vestidos de maneira extravagante, com roupas de cores fortes, chapéus enfeitados com medalhas, exibindo anéis, colares e broches, Lampião e seus cangaceiros manifestavam o gosto pela ostentação”.
Esse modo alternativo de vida rendeu aos jornais da época um rico material fotográfico. Mas foi pelas lentes do cineasta libanês Benjamin Abrahão, após ganhar a simpatia de Lampião e ter acesso ao esconderijo dos cangaceiros, que surgiu, na opinião de Èlise, uma das reportagens mais espetaculares realizadas em terras brasileiras. Com uma série de fotografias e um documentário que retratavam o dia-a-dia do Cangaço nas mãos, Abrahão sofreu as conseqüências da repercussão de sua obra pelo país. Em maio de 1938, foi assassinado com 42 golpes de faca, enquanto os rolos do filme foram apreendidos e escondidos pela polícia.
Imaginário nordestino – Se por meio de imagens Lampião tentava provocar o governo e seus inimigos, a resposta não demorou a vir. Transformando a Imprensa em um campo de batalha e usando as imagens como armas de ataque, os adversários do rei do Cangaço passaram a patrocinar a produção das fotografias mais impressionantes da época. “A princípio, as imagens representavam a força volante em ação. Durante o regime do presidente Getúlio Vargas, que começou a exterminar os cangaceiros de maneira sistemática, surgiram as fotos de cadáveres mutilados, com extremo cuidado de composição de cena”, conta Èlise.
Essas imagens, aliás, serviram como ponto de partida para as pesquisas da historiadora, que morou no Brasil nos períodos de 1991/92 e 1996/97. Na época em que esteve no Recife, em Pernambuco, percebeu que o famoso cangaceiro era muito presente no imaginário nordestino, despertando um verdadeiro sentimento de identidade regional. O fascínio sobre a figura e a vida de Lampião também foi capaz de atingir a França que, segundo Èlise, teve o primeiro contato com o universo do Cangaço em 1953, durante a apresentação do premiado filme O Cangaceiro, de Lima Barreto, no Festival de Cannes, seguido do aclamado Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.
As aventuras de Lampião chamaram a atenção do desenhista francês Hugo Prat, que incluiu o personagem na narrativa Samba avec Tir Fixe do herói Corto Maltese, publicada na edição de maio de 1970 da revista PIF Gadget. De acordo com Èlise, na história, Corto Maltese encontra em Salvador, na Bahia, uma mulher fora do tempo, militante antiimperialista, grande mestra em magia negra, chamada Boca Dourada. Ela pede ao herói que libere armas para os cangaceiros do sertão. “Nesse caso é interessante avaliar a interpretação que se fazia do cangaceiro: um herói popular, que luta contra a injustiça e usa as armas para restabelecer a sua honra, mas sobretudo para ter mais justiça social na região”, avalia.
Dois livros sobre o tema – abordando o Cangaço sob um aspecto mais político – também foram lançados na França: Rebeldes Primitivos, do historiador egípcio Eric Hobsbawn, e outro escrito pela socióloga brasileira Maria Isaura Pereira de Queiroz, traduzido para o francês. Política à parte, o que atualmente atrai o interesse do francês é a estética do cangaceiro, sua história e o impacto das imagens, como as das cabeças cortadas. A historiadora conta que mais de 15 mil pessoas passaram por Montpellier para conferir de perto o resultado da mostra Cangaceiros.
Personalidade complexa – Nascido em 1898, no sítio Passagem das Pedras, em Vila Bela – atual Serra Talhada–, no sertão de Pernambuco, Virgulino Ferreira da Silva era o terceiro dos oito filhos do sitiante José Ferreira e de Maria Lopes. O interesse pelo Cangaço surgiu em 1915, depois do assassinato de seu pai em uma briga com o vizinho. Jurando vingança, ingressou no bando de Sinhô Pereira, e ganhou, em 1922, a liderança do grupo e o apelido de Lampião, por causa de sua habilidade com o rifle.
O rei do Cangaço não ficou conhecido dessa forma por acaso. O dinheiro, a prataria, as jóias e os objetos de valor, levados pelo seu bando nas invasões de sítios, fazendas e cidades, eram usados para manter o grupo e, também, divididos com as famílias pobres das regiões em que passavam. Além de simpatizantes, Lampião e seu bando conquistavam o apoio das comunidades e aumentavam o número de aliados.
Os ataques dos cangaceiros às fazendas de cana-de-açúcar incomodavam os produtores e os governos regionais, que passaram a investir nos serviços de grupos militares e paramilitares. Em 1927, após uma tentativa frustrada de invadir Mossoró, no Rio Grande do Norte, fugiram para uma região escondida, entre os Estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Bahia, impedindo que a polícia de qualquer dessas regiões ultrapassasse suas fronteiras. Em uma dessas fugas, foi parar no pequeno município de Santa Brígida, interior da Bahia, onde conheceu Maria Bonita, sua eterna companheira e a primeira mulher a participar de um grupo de cangaceiros. Da união nasceu Expedita Ferreira, filha única do lendário casal.
Lampião não tinha apenas a vocação de líder e de estrategista. Apresentava outras habilidades invejáveis para a sua época. Sabia ler, tocar sanfona, escrever poesias e não dispensava um perfume francês. Também aprendeu a costurar, o que levou à caracterização das suas roupas e às dos integrantes do seu bando. Em julho de 1938, após meses fugindo da polícia pelo Raso da Catarina, na Bahia, Lampião, Maria Bonita e os integrantes do grupo refugiaram-se na Grota do Angico.
No meio da caatinga fechada, foram decapitados e tiveram as cabeças expostas na escadaria da Prefeitura de Piranhas, em Alagoas. Os cangaceiros que conseguiram escapar se renderam mais tarde ou se juntaram a Corisco, o Diabo Loiro, que, numa tentativa de vingança, morreu dois anos depois em Brotas de Macaúbas, na Bahia, decretando o fim do Cangaço.
Atualmente, a imagem de Lampião permanece viva na cultura popular do Nordeste. Èlise comenta que, a cada pesquisa feita, ele se tornava um personagem incrivelmente complexo. Herdeiro de uma história pessoal e social marcada pelas lutas em família, injustiças, assassinatos e desonras, Lampião afirma-se como justiceiro e perturbador extremo, sendo percebido como tal. “O que me impressionou quando tentei levantar a sua biografia é o quanto cada um dos narradores quer ser o único detentor da verdade. Existem várias histórias que continuam a se construir com o passar dos anos”.
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280
Janeiro 2007 |
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