BONS VENTOS VIRÃO?

Apesar do fraco crescimento do PIB BRASILEIRO em 2006 e dos
conhecidos problemas estruturais, executivos de empresas francesas
instaladas no país enxergam 2007 com otimismo e prevêem muito trabalho e investimentos significativos nos próximos anos

Françoise Terzian

Terra de fartura e escassez, com um terreno ao mesmo tempo repleto de desafios e oportunidades. Esta é a imagem conquistada pelo Brasil após 506 anos de evolução. Com 8.511.965 quilômetros quadrados e uma população de quase 188 milhões de habitantes, o mais extenso país da América do Sul avança entre aceleradas e freadas. Embora ainda conviva em meio a uma série de problemas: caso da infra-estrutura precária, alta carga tributária, corrupção e urgência na melhoria dos sistemas educacionais e de saúde, o país transformou-se, nas últimas décadas, em alvo de grandes corporações globais.

O B dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o bloco dos novos gigantes da economia, tem muito potencial, embora alguns economistas internacionais comecem a apelidar o grupo de RIC e criticar o Brasil por conta do baixo desempenho da economia em 2006. Empresários e governo, de forma geral, enxergam a situação do país com otimismo, prevendo muito trabalho e investimentos para os próximos anos. Isso mesmo com a taxa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) não tendo atingido os 5% esperados pelo governo.

Ao contrário da busca incessante pelo aumento das exportações, o governo Lula afirmou recentemente que é hora de a indústria, de o comércio e de o setor de serviços voltarem a olhar para o mercado interno. Além do grande número de consumidores, o Brasil ainda é vantajoso para quem deseja transformar o país em base de exportação de produtos e serviços para o restante do mundo. A mão-de-obra mais barata, em comparação com a dos Estados Unidos e a da Europa, justifica a oferta de serviços de offshore outsourcing (terceirização de uma região para outra). Isso tudo sem falar no know-how de tecnologia nas áreas bancária e de agribusiness.

Outra boa notícia chega bem na hora em que o país começa a aquecer o motor para 2007. Empresários brasileiros estão muito mais otimistas em relação ao desempenho da economia neste ano, em comparação à expectativa que tinham para 2006. É isto o que aponta a pesquisa inédita de Perspectiva Empresarial feita pela Serasa, entre 28 de outubro e 8 de novembro de 2006, com executivos de todo o país (presidentes, diretores e economistas-chefes). Trata-se de um levantamento estatístico com uma amostra de 1.032 empresas de pequeno, médio e grande portes e setores da indústria, comércio, serviços e instituições financeiras das Regiões Norte, Nordeste, Centro–Oeste, Sudeste e Sul. De todos os empresários entrevistados, 64% acreditam que 2007 registrará crescimento do PIB, ante 56% que crêem nesta evolução para 2006. Pela pesquisa, na análise por setor, há consenso de que 2007 será um ano melhor. Os empresários das instituições financeiras (bancos, financeiras, seguradoras e outros) são os mais otimistas, com 75% dos entrevistados apostando nesta direção, ante 70% em 2006. A seguir, estão os empresários do comércio, com 68% deles acreditando em crescimento do PIB no próximo ano, diante de 53% que viam essa perspectiva para 2006. A maioria dos empresários (64%) do setor de serviços crê no desenvolvimento econômico em 2007, e a indústria, entre todos os setores, é o de menor otimismo para o próximo ano (62%), ainda que se situe acima da perspectiva verificada para 2006 (54%).

Na área financeira, capitaneando as perspectivas de crescimento para 2007, há grande confiança na recuperação do mercado interno, na evolução do crédito e na melhora do nível de emprego. Já a indústria se mostra cautelosa sobre as diretrizes do câmbio valorizado e do intercâmbio comercial (concorrência com os importados) e a questão energética (oscilações internacionais no preço do petróleo e o fornecimento do gás boliviano) para o próximo ano.

Os temores em relação ao cenário internacional e as dúvidas referentes ao clima pós-eleições brasileiras não passaram de receios. Apesar dos vários problemas estruturais apresentados pelo país – infra-estrutura carente, alta carga tributária, problemas de falta de segurança e educação precária –, empresários estrangeiros e brasileiros planejam ampliar suas apostas no mercado interno este ano. Diferentes setores vêem 2007 com otimismo e prepararam seus investimentos.

Este é o caso do grupo Air Liquide, fornecedor mundial de gases industriais, medicinais e de serviços correlatos. Presente em mais de 70 países e com um faturamento de 10,4 bilhões de euros (em 2005), tem 80% de sua receita proveniente de negócios fora da França. Um de seus mercados fortes é o Brasil. “Apostaremos em novas unidades de produção, meios de distribuição e abertura de três filiais em estados onde não estamos presentes”, avisa Walter Pilão, diretor-comercial da Air Liquide.

A previsão de investimento para os próximos três anos no país é a de U$ 150 milhões, com o objetivo de conquistar cinco pontos de market share de 2007 a 2009. Hoje, a Air Liquide tem 18% de participação de mercado – a meta é chegar aos 23%. Com vendas em torno de U$ 300 milhões e crescimento de dois dígitos nos últimos anos, Pilão revela que 2006 foi muito difícil em termos de crescimento – cerca de 8% em moeda local e 10% em volumes.

Quanto às principais deficiências do país, o executivo alerta para problemas como alto custo financeiro; infra-estrutura problemática com estradas em péssimas condições e restrições portuárias e aéreas, e nível de competitividade das indústrias cada vez mais afetado pela valorização da moeda. A melhoria da infra-estrutura e a redução das taxas de juros são os desejos da Air Liquide para os próximos anos. Este é exatamente o mesmo pedido do grupo Saint–Gobain, especializado em vidros, embalagens e materiais de construção.

De acordo com Jean-Pierre Floris, delegado-geral para o Brasil e a Argentina do grupo Saint–Gobain, anualmente a empresa investe aproximadamente 110 milhões de euros para manutenção dos equipamentos, melhorias das usinas e acompanhamento do crescimento de suas atividades. Isso ocorre porque o mercado brasileiro é visto como de grande potencial. O faturamento no Brasil em 2005 foi de R$ 5 bilhões, valor 8% maior do que no ano anterior. Apesar disso, Floris considera que as taxas de juros brasileiras andam muito elevadas. “Sua baixa impulsionará o setor da construção”, prevê.

A Lafarge, maior cimenteira do mundo, é outro exemplo de crença francesa no país. No ano passado, a companhia investiu R$ 29 milhões no Brasil em manutenção e melhoria das unidades fabris, na implementação de novos processos de produção ambientalmente corretos e na aquisição de uma estação de moagem, com capacidade de 500 mil toneladas/ano, em Minas Gerais. Para este ano, Christophe Nicoli, presidente da Lafarge Brasil, deve manter o mesmo patamar de investimentos, da ordem de R$ 30 milhões. “O Brasil é um mercado estratégico para nós. Embora o consumo de cimento venha se mantendo estável desde 2004, percebemos, no ano passado, um aumento gradual no consumo”.

A aposta é tanta que o país foi escolhido para abrigar o Pólo Tecnológico da empresa na América Latina. Em funcionamento desde o início do ano, ele é voltado exclusivamente para o desenvolvimento de novas alternativas tecnológicas, produtos e processos que garantam maior produtividade para as 17 unidades da empresa no Continente, das quais seis se encontram em terras brasileiras.

Nicoli acredita que as oportunidades de crescimento da Lafarge no país são expressivas. O consumo de cimento per capta é de 188 quilos por habitante, patamar considerado muito abaixo do registrado pelos países mais desenvolvidos que, em tese, deveriam consumir menor quantidade do produto por terem sua infra-estrutura já desenvolvida. Na Espanha, por exemplo, o consumo per capita é de 1.166 quilos e na Itália é de 795 quilos por habitante.

Redução de custos – As montadoras, ao contrário do que se pensa, tiveram um 2006 positivo. Só no primeiro semestre do ano passado, a Peugeot do Brasil registrou um crescimento de 18,4% nas vendas em comparação ao mesmo período de 2005, em um mercado que cresceu 8,5%. Com um volume de 28.101 carros vendidos, a marca garantiu uma participação de mercado de 3,4%, ante 3,1% em 2005. A montadora

Stoll, da Renault do Brasil

atribui seu bom desempenho ao lançamento do Peugeot 206 1.4 Flex (álcool e gasolina), em janeiro de 2006, entre outros fatores como a aplicação de uma nova política de vendas.

Em relação à Renault da Brasil, Jérôme Stoll, presidente da unidade brasileira, estabeleceu grandes desafios para os próximos três anos: posicionar o Mégane entre os três primeiros em qualidade de produto e de serviço, dobrar o volume de vendas e atingir margem operacional positiva até 2009. Stoll acredita que as metas são ambiciosas, mas realizáveis. “Contamos com um plano de produtos bem definido até 2009 e adaptado à realidade do mercado nacional; nossas fábricas terão um nível de utilização alto, o que favorecerá a produtividade e a redução de custos”, afirma.

Além disso, do ano passado até 2009, a Renault totalizará seis novos veículos produzidos no país – o que elevará a atual produção de 78 mil unidades para cerca de 170 mil em 2009. A montadora francesa estima que as vendas internas devem duplicar nos próximos três anos, para atingir 106 mil unidades e uma participação de mercado de 5,7%.

Com foco em projetos, produção e venda de componentes, sistemas e módulos para a indústria automobilística, a Valeo Brasil teve um crescimento de 66% nos últimos quatro anos. No país, a empresa atua com nove unidades industriais, cerca de três mil colaboradores, um centro de distribuição e apresenta um faturamento anual de aproximadamente R$ 1,2 bilhão. No ano passado, a Valeo lançou uma nova fábrica de sistemas de segurança em Guarulhos (SP) e fez uma extensão de 80% da área industrial das unidades de alternadores, motores de partida e limpadores de pára-brisa, em Campinas (SP).

“Em 2007, todas as linhas da companhia continuarão crescendo mais do que o mercado. Por isso, investiremos na extensão da fábrica de radiadores e módulos de resfriamento de Itatiba (SP) e na nova unidade (construção ou aluguel) para a linha de produto de chaves de seta”, revela Alain Keruzoré, presidente da Valeo para a América do Sul. Embora o nível do câmbio e o fortalecimento de países emergentes como a Índia, a China e outros da Ásia e do Leste Europeu tendam a reduzir o nível de exportações dos veículos brasileiros, o executivo acredita no fortalecimento do mercado interno.

A produção global de veículos deve ultrapassar o nível de 2,7 milhões de unidades, recorde no país. Isso vem totalmente ao encontro do que defende o governo Lula para este ano de 2007. Entretanto, Keruzoré alerta para o fato de que o baixo poder aquisitivo e o nível alto dos juros reais e dos impostos são significativas barreiras para um crescimento sustentado. Para ele, as principais deficiências do país são o crescimento fraco do PIB, os inexpressivos investimentos em infra-estrutura e a falta de vontade do governo em reduzir os próprios gastos. Em contrapartida, o presidente da Valeo acredita que a redução progressiva da taxa Selic e as melhorias nas condições de financiamento devem ter um impacto positivo em 2007.

Oportunidades perdidas – O setor de transportes como um todo tem encarado as perspectivas de crescimento do Brasil com otimismo, embora seja um dos mais prejudicados com a falta de infra-estrutura. “Do ponto de vista dos negócios, ainda somos um país de muitas oportunidades e potenciais diversos a serem explorados. Nossa pauta de exportação foi aumentada consistentemente nos últimos anos, o que prova que temos produtos de qualidade e tecnologia, e não apenas as eternas commodities agrícolas”, analisa Márcio André Santos, da divisão de projetos da Figwal. A empresa brasileira de transportes e logística encerrou 2006 com aumentos significativos de clientes, faturamento e funcionários.

Os números ainda não estão fechados, mas sua receita aumentou em cerca de 20%. Para 2007, a expectativa é a de, no mínimo, manter essa performance. Para tanto, a Figwal pretende continuar investimento por aqui, aposta que inclui a abertura de filiais e a inauguração de um novo centro de distribuição. O outro lado da moeda é que muitas oportunidades continuam a ser perdidas por motivos tão antigos que já não deveriam mais ocorrer. Santos lembra que a taxa de juros é a menor em uma década, mas ainda é o triplo da média dos países emergentes.

O câmbio, por sua vez, permanece valorizado e não há espaço para uma acomodação minimamente razoável no curto prazo. “Os gastos do governo aumentam a cada ano e a carga tributária também. Nossa infra-estrutura mantém-se precária. Estradas, portos e aeroportos não atendem apropriadamente às demandas atuais. Se crescermos apenas a metade do ritmo chinês, o colapso logístico será inevitável”, alerta Santos. É por esse motivo que ele e boa parte do mercado defendem que não adianta investir no aumento das exportações em 20% ou 30% ao ano se não há estrutura para operar a logística de forma adequada. A implementação das PPP´s (Parcerias Público-Privadas) ajudaria a resolver a falta de recursos do governo para investir em infra-estrutura. Entretanto, Santos lembra que os projetos estão parados e nem marco regulatório há. ”Enquanto o governo não definir a parte que lhe cabe, a iniciativa privada não poderá fazer nada”.

Pilão, da Air Liquide

Outra crítica refere-se à alta carga tributária. É visível entre o empresariado que os gastos públicos precisam ser reduzidos. Acredita-se que a melhora na gestão dos recursos públicos resultaria em considerável diminuição de gastos. Estes, por sua vez, permitiriam a diminuição dos impostos. “Acho impossível ocorrer queda da carga tributária nos próximos dois anos”, afirma Santos.

Para Max Thiermann, presidente da AGF Seguros, se o país quiser continuar a atrair investimentos estrangeiros, precisará de uma série de reformas nos sistemas judiciário, legislativo e também previdenciário. “Quem investe aqui o faz pensando em obter retorno em 10, 15 anos. Um dos entraves é não saber o que vai acontecer com as leis e suas interpretações, por exemplo”.

Preparar os jovens para o mercado de trabalho e qualificá-los para encontrar, lá na frente, um país que cresce e contrata é a sugestão de todas as empresas. A principal reclamação é a de que falta gente treinada e especializada. Como não dá para ficar de braços cruzados esperando que só o governo resolva o problema, companhias como Figwal e Bull investem na preparação de profissionais. Gigante européia do setor de TI, a Bull fornece globalmente soluções para grandes clientes corporativos. O Brasil, um de seus mercados emergentes, cresce a taxas de 45% por ano e representa 85% dos negócios gerados pelo grupo na América do Sul. O fato é que, diante do esforço para conquistar novos clientes, a empresa esbarra no problema da falta de mão-de-obra especializada, que afeta diferentes setores da economia brasileira. “Se eu quiser contratar 200 funcionários no ano que vem, certamente terei problemas”, avisa Luc Saint-Jeannet, vice-presidente de operações internacionais da Bull.

A principal reclamação de Saint-Jeannet refere-se à falta de gente especializada e disponível para trabalhar com serviços de TI. É grande a dificuldade para encontrar gerentes de projetos, líderes de área, entre outros perfis de profissionais. Diante de tamanha barreira, Alberto Araújo, presidente da Bull para a América Latina, diz que a empresa tem tentado se antecipar a esses entraves, investindo pesado em treinamento e admissão de estagiários. “Preparamos os profissionais para formarmos nossa própria reserva”, explica Araújo.

 

OTIMISMO EM ALTA
De acordo com dados de uma pesquisa realizada pela Serasa com 1.032 empresas nas Regiões Norte, Nordeste, Centro–Oeste, Sudeste e Sul em 2006, a maioria dos executivos de empresas de pequeno, médio e grande portes tem uma visão positiva do crescimento econômico do Brasil em 2007.

64% - dos entrevistados acreditam que 2007 registrará crescimento do PIB brasileiro
56%
- acreditavam nesta evolução em 2006
75%
- dos empresários das instituições financeiras andam bastante otimistas, ante 70% em 2006
68%
- dos empresários do segmento de comércio esperam um aumento do PIB este ano em relação aos 53% de 2006
64%
- dos empresários do setor de serviços apostam no desenvolvimento econômico em 2007, ante 58% em 2006
62%
- dos executivos da indústria acreditam no crescimento econômico do país em comparação com os 54% de 2006

    
    




   
   
     
     
      

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 Nº 280
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