REGISTRO DE VIAGEM


Otávio Martins é ator

O MELHOR DA FRANÇA

ive a felicidade de visitar Paris pela primeira vez na década de 1990. Fui a todos os lugares em que um turista recém-saído da barra da saia da mãe poderia ir. Tempos depois, retornei à cidade por mais duas ou três vezes. Há aqueles que amam e os que apenas gostam de Paris – eu, com certeza, faço parte do primeiro grupo. Na minha opinião, é impossível pensar na França sem associá-la ao aspecto cultural – prova disso são minhas preferências no cinema e na música. Truffaut é o meu cineasta favorito. Entre as atrizes, admiro o trabalho de Jeanne Moureau, e, na música, aprecio as composições de Serge Gainsbourg.

Uma obra em particular me marcou profissionalmente, quando em 1996
interpretei o papel de Robespierre no espetáculo Ensaio para Danton.
Os estudos sobre a vida do personagem e sua função histórica na
Revolução Francesa foram o início de uma verdadeira paixão pelos
textos escritos no idioma de Victor Hugo. Recentemente, estive em
cartaz com a peça A Noite Antes da Floresta, de Bernard-Marie Koltès,
reconhecido como um dos escritores mais inovadores do teatro
contemporâneo. Interpretar esse texto de Koltès (são 62 páginas,
sem um único ponto final, apenas vírgulas e travessões) é desafiante
para qualquer artista, pois ele quebra todos os paradigmas que
conhecemos como teatro tradicional.

Quando penso em Paris, lembro-me de uma situação bastante
curiosa vivenciada por mim em 2001, período em que estive
hospedado em um hotelzinho bem simples durante dois meses.
Meu francês era incrivelmente ruim e costumava trocar muitas
palavras pelo italiano. A proprietária, uma senhora muito simpática,
só falava sua língua materna. Nossa comunicação parecia muito boa,
até a visita de uma amiga que, depois de rir muito, me falou: “Eu não
sei o que você tentou dizer para ela, que pensa que você é espanhol, mora
no Brasil com uma jornalista francesa e que eu sou sua amante italiana”.
A partir daí, nunca mais batemos papo.

Também tive a oportunidade de visitar a Normandia, um dos lugares mais mágicos e belos em que estive na vida, seja pelas falésias ou por ter a melhor torta de maçã do mundo. Fato inusitado aconteceu quando assisti ao espetáculo L’Homme du Hazard especialmente para ver a performance de Philippe Noiret. Fiquei muito frustrado por não ter tentado cumprimentar esse ator que tanto admirava. Quando voltava para o hotel, um senhor esbarrou em mim e, somente no final de suas desculpas, percebi: era Philippe Noiret! Caminhei aos risos para o metrô.

Voltando a falar de Paris, é impossível ficar indiferente à Torre Eiffel, à Catedral de Notre-Dame e ao Arco do Triunfo. Não são apenas monumentos históricos. Fazem parte do imaginário do mundo moderno. Tratá-los como meros destinos turísticos significa desconhecer o nosso tempo.”

Normandia: falésias e a melhor torta de maçã do mundo
   
 Nº 280
Janeiro 2007

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