Faoze Chibli e Jussara Goyano
Desde 2000, o interesse da França e do Brasil em reforçar os acordos de cooperação na área de educação tem se intensificado. Dados divulgados no dossiê A criação de duplos diplomas franco-brasileiros, do Centro Franco-Brasileiro de Documentação Técnica e Científica (Cendotec), revelam que 13 instituições brasileiras e 38 francesas participam desse tipo de intercâmbio –, entre elas, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC–SP), a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a École Centrale de Paris, a École Polytechnique e a École Centrale de Lyon –, resultando na capacitação de cerca de 400 estudantes dos dois países. Nos últimos anos, a formação bilateral tem revelado uma nova tendência de mercado: a necessidade cada vez mais premente de profissionais com um perfil multicultural no setor produtivo.
Um recente encontro na cidade de São Paulo (SP), batizado de Fórum Franco-brasileiro Empresas e Formação de Engenheiros permitiu uma série de reflexões e debates sobre esse tipo de graduação. Uma das preocupações na elaboração do evento foi a de aproximar os envolvidos deste contexto – universidades, instituições de pesquisa, empresas e outros órgãos privados e governamentais –, para chegar a uma maior adequação do duplo diploma.
O fórum foi realizado pela Conferência de Diretores das Escolas Francesas de Engenheiros, pelo Consulado da França em São Paulo e pela entidade estatal Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), e a organização ficou a cargo da Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei).
Juliana Demarchi, headhunter da divisão de engenharia da Michael Page, empresa especializada em recrutamento de executivos, faz uma retrospectiva que ajuda a entender o interesse das empresas no assunto. “Nos últimos dez anos, houve uma mudança significativa no perfil do engenheiro, principalmente daqueles que atuam em qualidade, pesquisa e desenvolvimento”, explica. Antes, as posições eram estanques, ou seja, dificilmente haverá mobilidade entre setores. De acordo com Júlia, o mundo globalizado mostrou a necessidade de se compartilhar as operações, exigindo uma atuação mais flexível. “Um bom exemplo são as empresas de alimentos, de cosméticos e as farmacêuticas, que atualmente conseguem absorver mão-de-obra formada em outras companhias”.
Se antes era o conhecimento técnico que prevalecia na hora da contratação de um engenheiro, hoje inovação, criatividade e capacidade de se adaptar a diferentes ambientes são características que passaram a ser mais valorizadas pelas empresas. Para conquistar destaque no mercado de trabalho, a headhunter diz ser necessário ter grande visão estratégica e profundo conhecimento do negócio. Há também demanda por executivos expatriados, pois eles conseguem absorver rapidamente a cultura local. “Esse acúmulo de experiência e troca de cultura faz com que o profissional se torne mais versátil e entenda de diferentes mercados e tecnologias”, explica.
Sócio-diretor da Crescendo, consultoria educacional, e conselheiro da Câmara de Comércio França–Brasil de São Paulo (CCFB), Frédéric Donier, é um dos exemplos que demonstram o quanto a versatilidade contribuiu para a sua evolução profissional. Formado pela École des Mines de Saint-Etienne e consultor de empresas há 12 anos no Brasil, Donier acredita que um dos desafios das empresas brasileiras é o de reforçar sua presença no mundo globalizado, precisando, para isso, de uma demanda cada vez maior de engenheiros com formação multicultural e não apenas multiidiomas. Ele reforça que o Brasil ingressou tardiamente nessa economia mundial e ainda carece desse perfil de profissionais. “Apesar de uma notável evolução nos últimos dez anos”.
Em relação à realidade das empresas francesas presentes no país, o consultor conta que a expectativa é a de encontrar executivos capazes de adaptar o estilo de gestão européia ao brasileiro, mobilizando equipes com o objetivo de tornar os negócios globais mais eficientes. “Essa não é uma tarefa fácil, pois exige o aperfeiçoamento técnico de engenheiros de várias partes do mundo”, explica. Flexibilidade, ótima inteligência tática, relacionamento interpessoal e dinamismo são qualidades tidas como freqüentes nos executivos brasileiros. “E o duplo diploma será um grande acelerador de carreiras internacionais”, afirma Donier. Por se tratar de uma nova tendência de mercado, ainda existem poucas estatísticas sobre o crescimento e as oportunidades adquiridas pelos estudantes a partir de uma formação franco-brasileira. “Percebo o interesse pelo tema nos contatos com presidentes de empresas”.
Engenheiros recém-empregados compartilham sua satisfação pelas posições alcançadas. Recentemente, o consultor conheceu um jovem brasileiro que, após obter seu duplo diploma, foi convidado a se tornar o representante de uma empresa de tecnologia francesa no Brasil. “Ele reconhece que sem esse título dificilmente teria acesso a uma oportunidade como essa”.
Futuros líderes – As vantagens do perfil multicultural para uma companhia francesa são claras: um profissional de boa formação e que entende tanto a maneira de pensar e agir dos franceses quanto a dos brasileiros trata-se de um valioso ativo em uma operação bilateral. No sentido contrário, esses executivos também podem trazer maior eficiência no desenvolvimento de novos negócios na França e em países francófonos. Já no âmbito acadêmico, o intercâmbio não é menos intenso. Algumas das escolas de engenharia francesas possuem mais de 200 anos de atuação. É natural que o processo de aprendizado tenha sofrido diversas evoluções e aperfeiçoamentos.
No entanto, desde o século XIX, a demanda das empresas cresce de forma acentuada. “A formação do engenheiro francês evoluiu muito no quesito internacionalização e em gestão e ciências humanas”, observa Donier. Em decorrência disso, o consultor critica o excesso de tecnicidade na atual formação do engenheiro. Os modelos de gestão das empresas tendem para abordagens mais participativas e transversais e menos hierarquizadas e autocráticas. “Existe o conceito na França de escolas de engenharia generalistas, que dão uma formação técnica e administrativa aos estudantes. Isso sem a especialização no setor civil, químico ou mecânico”.
O resultado disso? “Engenheiros generalistas freqüentemente se tornam os futuros líderes das empresas nas quais trabalham”. O consultor enxerga, no Brasil, a engenharia de produção talvez como o embrião dessa mudança. “Coincidentemente foi a especialização que mais cresceu no país nos últimos anos”, afirma. Quem atua nessa área sabe a importância dos profissionais com essas características.
Marc Barral, diretor-adjunto de engenharia de veículos para a América da Renault do Brasil, explica que a operação de dez anos da empresa em terras brasileiras tem como objetivo fabricar e vender veículos em todo o mercado sul-americano. A necessidade de adaptação dos automóveis não se limita a equipamentos e condições de uso e rodagem. Passa também por razões estratégicas e econômicas – principalmente no que diz respeito ao desenvolvimento de peças nacionais. E isso, de acordo com Barral, é feito com mais eficácia por engenheiros que conhecem efetivamente o país e a necessidade dos consumidores locais.
Paralelamente, a indústria automobilística de produção em massa trabalha para que cada subsidiária aplique localmente os mesmos processos e padrões da matriz, de maneira a garantir aos clientes, onde quer que estejam, o mesmo nível de qualidade e satisfação. “Nesses casos, é indispensável que os engenheiros tenham uma abordagem bicultural das suas atividades, apoiando-se em um conhecimento mútuo. O que interessa é a mistura de conhecimento da empresa, da cultura e do idioma”.
Para Luiz Leite, diretor de recursos humanos da Alstom, o Programa de Estágio promovido pela empresa tornou-se a melhor forma de encontrar novos talentos no mercado de trabalho. A iniciativa preocupa-se com a formação bilateral de profissionais, que passam por ensino e prática no Brasil e na França. “Pelo projeto, já passaram 140 estagiários. O processo de seleção desse pessoal totalizou nove mil inscritos no ano passado”.
Por esse motivo, Leite tem razões de sobra para apoiar a ampliação do duplo diploma, com o objetivo de criar um observatório capaz de supervisionar a formação, a atuação e o encaminhamento dos formados. Um dos desafios que, segundo ele, precisa ser superado é a burocracia do Brasil. “É muito difícil para o francês obter o visto no país. Por outro lado, o brasileiro tem a chance de aplicar localmente o que aprendeu no exterior”, explica.
Processo criativo – Managing director da Altran Technologies, Anderson Novaes Mendes Alves afirma que a formação bilateral de engenheiros se revela uma excelente oportunidade para as empresas. O executivo acredita que, com isso, as companhias podem se apoiar em profissionais mais bem preparados para um cenário globalizado. “Principalmente quando se trata de projetos que envolvem times multipaís com forte interface com o headquarter dos clientes e transferência de tecnologias da Europa para o Brasil”.
Internacionalização, ciência e recursos humanos de alto nível. João Fernando Gomes Oliveira, coordenador das engenharias da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), reforça que a França é hoje um grande parceiro da entidade. “A entrada da indústria francesa no Brasil depois do Plano Real foi um marco e aconteceu de forma bastante consolidada”. Um dos exemplos citados por Oliveira ocorreu com as montadoras instaladas no país, que, com o tempo, passaram a produzir automóveis em território nacional. Segundo ele, além da já existente tradição na área científica, as estratégias voltaram-se para gestão e engenharia. “Um dos grandes interesses é o do desenvolvimento do setor empresarial brasileiro como parceiro do francês”.
Entretanto, João Manoel Gomes da Silva Jr., professor da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, destaca que a formação do profissional não se limita à oferta de estágios. “Na França, as empresas costumam assumir esse papel de formadoras, enquanto no Brasil existe um sistema engessado em carga horária e currículos”. Tudo isso contribuiu para que se questionasse não somente a própria formação dos engenheiros brasileiros, mas também auxiliasse a “descolonizar” a visão nacional em termos de ensino.
Ronaldo Antonio Neves Marques Barbosa, diretor da Associação Brasileira de Metalurgia e Materiais, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e consultor em cooperação internacional da Capes, acredita que inovação na área de engenharia pode ser conquistada por meio da iniciação científica. Trata-se de um processo que no Brasil é usado “para estimular o aspecto formação e é articulado em órgãos como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo”. De acordo com ele, a idéia é fazer com que os estudantes se aproximem de equipes de pesquisa dentro da universidade e, em um ano ou dois, aprendam o processo. “A iniciação científica talvez seja a primeira etapa para uma visão mais universal do processo criativo. É o primeiro degrau na formação internacional”.

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EDUCAÇÃO |
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Nº
282
Maio/Junho 2007 |
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