ENTREVISTA
CLAUDE IVERNÉ

A realidade dos moradores do Sudão retratada pelo fotógrafo francês que durante dez anos se misturou aos cameleiros núbios em busca de vestígios da antiga
Rota dos Quarenta Dias

Marilane Borges, de Bruxelas

 

IMAGENS DO DESERTO

   
 Nº 282
Maio/Junho 2007
 
 
  Tour de France

Existe um mundo a ser descoberto onde homens e dromedários desaparecem na poeira dos tempos e desertos, mas que para o fotógrafo francês Claude Iverné tem um significado especial. Durante dez anos, ele acompanhou caravanas, organizou expedições e misturou-se aos cameleiros núbios em busca de vestígios da antiga Rota dos Quarenta Dias, que começa em Darfour e vai até a parte egípcia do Sudão. O material reunido em suas andanças pelo território sudanês está exposto na mostra Faraós Negros na Rota dos Quarenta Dias, em cartaz até o fim de setembro de 2007, no Museu Real de Mariemont, em Bruxelas, na Bélgica (veja boxe página 30). Fotógrafo de moda no passado, Iverné resolveu afastar-se do fast-food fotográfico para retratar lentamente, no ritmo dos nômades, a realidade dos moradores do deserto. “Contrariamente às imagens da atualidade, que devem prender a todo preço a atenção dos leitores, mas dão poucas informações reais e raramente provocam reflexões, minhas fotografias parecem um longo texto. Exigem tempo para observar os detalhes e ritmos”, afirma. Nesta entrevista concedida com exclusividade para a revista França Brasil, Inverné fala sobre a sua experiência como fotógrafo e viajante de diferentes partes do mundo, conta detalhes dos anos em que percorreu os desertos do Sudão e do Egito e a respeito da associação Elnour (luz, em árabe), fundada por ele para reunir fotos e vídeos, além de documentos históricos e científicos sobre a região.

França Brasil – Quando você começou a se interessar por fotografia e em que momento resolveu percorrer o mundo em busca de boas imagens?
Claude Iverné – A fotografia chegou até mim quando eu tinha uns 20 anos, como por brincadeira. No retorno de uma viagem que fiz para a Irlanda, em visita a alguns parentes, um laboratório fotográfico propôs vender pôsteres e cartões-postais com minhas imagens de amador. Anos mais tarde, comecei a produzir fotos sobre alta-costura para a Maison Pierre Cardin, período no qual percorri vários países a trabalho. Um pouco depois, parti rumo à descoberta do mundo como assistente de um importante fotógrafo de moda. Eu chegava alguns dias antes do evento para me aventurar pela cidade tirando minhas próprias fotos. Foi nesse momento que passei a me interessar por fotografar culturas e povos diferentes.

FB – E quando o deserto cruzou a sua trajetória profissional?
CI – Depois de algumas exposições, os jornais começaram a encomendar retratos de celebridades, porque eu era conhecido por fotografar não importava quem fosse. A Imprensa me pedia cada vez mais reportagens internacionais, quase sempre em países árabes e mulçumanos, porque eu falo árabe. Foi então que descobri o Sudão, em 1997, quando estava procurando reconstituir a Rota dos Quarenta Dias a partir do Egito. O trabalho de repórter consumia muito tempo, além do que as legendas e os textos traduziam uma idéia ocidental do mundo muito mais do que a realidade pura que eu vivenciava. Com o passar dos anos, senti uma certa inadequação entre o que via e o que deveria ser mostrado na Imprensa. A partir daí, decidi me dedicar ao Sudão de uma maneira mais profunda. Fiquei apegado nessa época às artes, acompanhando seminários de história e fotografia documental na Escola de Belas Artes de Paris. Depois dessa abertura de espírito, eu não poderia mais fotografar da mesma maneira. A experiência no Sudão fez com que as minhas imagens ficassem mais próximas da observação e distantes da descrição standard que as revistas exigiam quando eu era repórter-fotográfico.

FB – Fale um pouco sobre a sua experiência de fotógrafo e viajante. Viver a realidade de um país por um longo período é a melhor maneira de traduzi-lo em imagens?
CI – Eu tento viver o mundo – uma concepção que vai além de somente viajar. Viagens são movimento, excitação superficial, uma rápida visita ao desconhecido. Eu prefiro viver e mudar lentamente de país, de tribo, de cidade, e repousar às vezes ao lado do inimigo. Não se adquire a compreensão de um território senão pela força de freqüentá-lo. A cada nova expedição descubro facetas diferenciadas, elementos da história das sociedades. Os abismos do saber se engradecem à medida que o conhecimento é adquirido. Eu sei que não descobrirei a importância de certos detalhes, mas talvez, depois da vigésima ou trigésima expedição na Rota dos Quarenta Dias, eu possa ter essa sabedoria. Quando o tempo tiver passado e a repetição dos gestos amadurecer, meu olhar será como o dos caravanistas que fazem essa rota há séculos.

FB – Até setembro deste ano fica em cartaz no Museu Real de Mariemont, situado na Bélgica, a exposição Faraós Negros na Rota dos Quarenta Dias – um evento que lança luz sobre uma das mais preciosas descobertas arqueológicas dos últimos tempos. Como é ver suas imagens, produzidas durante tantos anos no Sudão, expostas?
CI – É ótimo. A exposição do Museu Real de Mariemont mistura imagens de fotojornalismo, produzidas por mim há oito anos, com outras recentes, mais próximas da minha visão atual. Meu estilo de expressão se orienta naturalmente em torno de imagens atemporais, diferentemente das fotos de reportagens, mais descritivas, estáticas e em grandes formatos. Essa representação do real foi se moldando na minha trajetória profissional, em comparação às minhas primeiras experiências no mundo da moda, do luxo, da publicidade e dos retratos de celebridades. Contrariamente às imagens de ilustração da atualidade, que devem prender a todo preço a atenção dos leitores, mas que dão poucas informações reais e raramente provocam reflexões, minhas fotografias parecem um longo texto. Elas demandam tempo para uma leitura de detalhes e ritmos. Nada é gratuito em minhas fotos.

FB – Como foi acompanhar as expedições e as caravanas que procuravam vestígios da antiga Rota dos Quarenta Dias?
CI – Eu percorri a Rota dos Quarenta Dias duas vezes a partir de Darfour até a fronteira egípcia, acompanhando as caravanas existentes. Eu vivia como um simples cameleiro: participava de todas as atividades da tropa, fazia meus turnos de vigília, cozinhava, sempre acompanhado de minha máquina fotográfica, um notebook e alguns blocos de anotações. Mas eu dormia menos do que eles. Como dirigente e condutor de várias expedições, percorri o traçado antigo, sempre em dromedário, à procura de vestígios dessa rota no deserto líbio. Eu era responsável pela compra dos dromedários, das celas, da comida e por empregar os cameleiros. Continuo propondo esse gênero de expedição, mas a guerra em Darfour complicou muito a situação. Minhas explorações me levaram às regiões de Darfour, Kordofan, aos Montes Nouba, sempre lentamente, no ritmo dos nômades e dos camponeses, em lombo de cavalo, dromedário, de caminhão ou a pé.

FB – E quais foram as suas impressões durante essa aventura?
CI – Minhas impressões se parecem com aquelas descritas pelos viajantes ocidentais há muitos séculos. Eu descubro territórios, sociedades desconhecidas e pouco exploradas. Lá onde eu vivo no Sudão, sobretudo em Darfour, muitas pessoas jamais tinham visto um homem branco antes da minha chegada. O território sudanês é descrito apenas por alguns antigos viajantes até o ano de 1900. Pouco depois da Independência, em 1956, as únicas informações que nos chegavam eram essencialmente transmitidas em vídeos nos quais podíamos observar, sobretudo, imagens das guerras locais. Esse país continua desconhecido, porque a urgência da Imprensa não oferece esse luxo que eu tenho: o de viver bastante tempo nessa região e continuar a freqüentar ano após ano Darfour, lugar onde quase ninguém vai.

FB – Quantos anos foram necessários para reunir todas essas imagens e por que você escolheu fotografar em preto-e-branco?
CI – Foram necessários dez anos de trabalho para reunir todas as imagens. Eu caminhei pela primeira vez em solo sudanês há oito anos. Em primeiro lugar, queria saber sobre o mercado egípcio, do outro lado da rota. Depois da sua origem, em Darfour. Cada vez que vou, fico entre três e seis meses na mesma região. Retorno regularmente aos mesmos lugares e observo todas as transformações. Em relação às cores, o mundo é colorido, e seria lógico descrevê-lo assim. Mas freqüentemente a cor desvia a atenção do leitor, perturba. O preto-e-branco me permite ir direto ao ponto. Utilizo a cor quando ela é indispensável para a descrição ou quando contribui para a compreensão da situação retratada na imagem. Hoje, todas as imagens produzidas no Sudão fazem parte do arquivo da associação Elnour (luz, em árabe), fundada por mim. É uma espécie de agência que agrupa fotos, vídeos, documentos históricos e científicos sobre a região – muitos relacionados à Rota dos Quarenta Dias, mas também sobre o conjunto do país. No momento, estamos em busca de financiamento para colocar todo esse material disponível na internet. Já digitalizamos 20 mil imagens antigas e modernas, mais de 80 filmes e 300 livros, além de trabalhos de pesquisa ligados ao Sudão. Os primeiros arquivos poderão ser consultados no site www.elnour.net antes do fim de 2007.

FB – Que mensagem você deseja transmitir por meio de suas fotos?
CI – Se tivesse uma mensagem, seria subliminar. Eu tento documentar o mundo no qual vivo, distante das alegorias do fast-food fotográfico, que se impõe cada vez mais ao nosso cotidiano. Meus trabalhos não procuram convencer, porque eu não detenho a verdade, mas eles tentam expor, descrever, traduzir, mostrar meu ponto de vista. Para restituir uma visão humana das sociedades que visito, utilizo uma técnica simples: objetivas standards sem deformação ótica. Eu fotografo os detalhes; na verdade, os acumulo, os coleciono. Registro, dato, anoto o nome dos homens, suas palavras, lugares, tribos e clãs. Constituo assim uma coleção que se torna meu vocabulário. A organização das imagens para uma exposição ou para compôr uma publicação é uma gramática. Ela nos dá uma escrita descritiva. Espero que essa mostra provoque a curiosidade do leitor tanto quanto evoque suas questões relativas ao mundo.

FB – Você pretende refazer a Rota dos Quarenta Dias?
CI – A última notícia que tenho é a de que as caravanas retomaram seu tráfego habitual em Darfour. Isso me permite considerar que muito brevemente estarei em uma nova expedição ao caminho que leva à Rota dos Quarenta Dias.

 
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