Existe
um mundo a ser descoberto onde homens e dromedários desaparecem na poeira
dos tempos e desertos, mas que para o fotógrafo francês Claude Iverné
tem um significado especial. Durante dez anos, ele acompanhou caravanas,
organizou expedições e misturou-se aos cameleiros núbios em busca de
vestígios da antiga Rota dos Quarenta Dias, que começa em Darfour e
vai até a parte egípcia do Sudão. O material reunido em suas andanças
pelo território sudanês está exposto na mostra Faraós Negros na Rota
dos Quarenta Dias, em cartaz até o fim de setembro de 2007, no Museu
Real de Mariemont, em Bruxelas, na Bélgica (veja boxe página 30). Fotógrafo
de moda no passado, Iverné resolveu afastar-se do fast-food fotográfico
para retratar lentamente, no ritmo dos nômades, a realidade dos moradores
do deserto. “Contrariamente às imagens da atualidade, que devem prender
a todo preço a atenção dos leitores, mas dão poucas informações reais
e raramente provocam reflexões, minhas fotografias parecem um longo
texto. Exigem tempo para observar os detalhes e ritmos”, afirma. Nesta
entrevista concedida com exclusividade para a revista França Brasil,
Inverné fala sobre a sua experiência como fotógrafo e viajante de diferentes
partes do mundo, conta detalhes dos anos em que percorreu os desertos
do Sudão e do Egito e a respeito da associação Elnour (luz, em árabe),
fundada por ele para reunir fotos e vídeos, além de documentos históricos
e científicos sobre a região.
França
Brasil – Quando você começou a se interessar por
fotografia e em que momento resolveu percorrer o mundo em busca de boas
imagens?
Claude Iverné – A fotografia chegou
até mim quando eu tinha uns 20 anos, como por brincadeira. No retorno
de uma viagem que fiz para a Irlanda, em visita a alguns parentes, um
laboratório fotográfico propôs vender pôsteres e cartões-postais com
minhas imagens de amador. Anos mais tarde, comecei a produzir fotos
sobre alta-costura para a Maison Pierre Cardin, período no qual percorri
vários países a trabalho. Um pouco depois, parti rumo à descoberta do
mundo como assistente de um importante fotógrafo de moda. Eu chegava
alguns dias antes do evento para me aventurar pela cidade tirando minhas
próprias fotos. Foi nesse momento que passei a me interessar por fotografar
culturas e povos diferentes.
FB
– E quando o deserto cruzou a sua trajetória profissional?
CI
– Depois de algumas exposições, os jornais começaram a encomendar retratos
de celebridades, porque eu era conhecido por fotografar não importava
quem fosse. A Imprensa me pedia cada vez mais reportagens internacionais,
quase sempre em países árabes e mulçumanos, porque eu falo árabe. Foi
então que descobri o Sudão, em 1997, quando estava procurando reconstituir
a Rota dos Quarenta Dias a partir do Egito. O trabalho de repórter consumia
muito tempo, além do que as legendas e os textos traduziam uma idéia
ocidental do mundo muito mais do que a realidade pura que eu vivenciava.
Com o passar dos anos, senti uma certa inadequação entre o que via e
o que deveria ser mostrado na Imprensa. A partir daí, decidi me dedicar
ao Sudão de uma maneira mais profunda. Fiquei apegado nessa época às
artes, acompanhando seminários de história e fotografia documental na
Escola de Belas Artes de Paris. Depois dessa abertura de espírito, eu
não poderia mais fotografar da mesma maneira. A experiência no Sudão
fez com que as minhas imagens ficassem mais próximas da observação e
distantes da descrição standard que as revistas exigiam quando eu era
repórter-fotográfico.
FB
– Fale um pouco sobre a sua experiência de fotógrafo e viajante. Viver
a realidade de um país por um longo período é a melhor maneira de traduzi-lo
em imagens?
CI – Eu tento viver o mundo – uma concepção que vai além de somente
viajar. Viagens são movimento, excitação superficial, uma rápida visita
ao desconhecido. Eu prefiro viver e mudar lentamente de país, de tribo,
de cidade, e repousar às vezes ao lado do inimigo. Não se adquire a
compreensão de um território senão pela força de freqüentá-lo. A cada
nova expedição descubro facetas diferenciadas, elementos da história
das sociedades. Os abismos do saber se engradecem à medida que o conhecimento
é adquirido. Eu sei que não descobrirei a importância de certos detalhes,
mas talvez, depois da vigésima ou trigésima expedição na Rota dos Quarenta
Dias, eu possa ter essa sabedoria. Quando o tempo tiver passado e a
repetição dos gestos amadurecer, meu olhar será como o dos caravanistas
que fazem essa rota há séculos.
FB
– Até setembro deste ano fica em cartaz no Museu Real de Mariemont,
situado na Bélgica, a exposição Faraós Negros na Rota dos Quarenta Dias
– um evento que lança luz sobre uma das mais preciosas descobertas arqueológicas
dos últimos tempos. Como é ver suas imagens, produzidas durante tantos
anos no Sudão, expostas?
CI – É ótimo. A exposição do Museu Real de Mariemont mistura
imagens de fotojornalismo, produzidas por mim há oito anos, com outras
recentes, mais próximas da minha visão atual. Meu estilo de expressão
se orienta naturalmente em torno de imagens atemporais, diferentemente
das fotos de reportagens, mais descritivas, estáticas e em grandes formatos.
Essa representação do real foi se moldando na minha trajetória profissional,
em comparação às minhas primeiras experiências no mundo da moda, do
luxo, da publicidade e dos retratos de celebridades. Contrariamente
às imagens de ilustração da atualidade, que devem prender a todo preço
a atenção dos leitores, mas que dão poucas informações reais e raramente
provocam reflexões, minhas fotografias parecem um longo texto. Elas
demandam tempo para uma leitura de detalhes e ritmos. Nada é gratuito
em minhas fotos.
FB
– Como foi acompanhar as expedições e as caravanas que procuravam vestígios
da antiga Rota dos Quarenta Dias?
CI – Eu percorri a Rota dos Quarenta Dias duas vezes a partir
de Darfour até a fronteira egípcia, acompanhando as caravanas existentes.
Eu vivia como um simples cameleiro: participava de todas as atividades
da tropa, fazia meus turnos de vigília, cozinhava, sempre acompanhado
de minha máquina fotográfica, um notebook e alguns blocos de anotações.
Mas eu dormia menos do que eles. Como dirigente e condutor de várias
expedições, percorri o traçado antigo, sempre em dromedário, à procura
de vestígios dessa rota no deserto líbio. Eu era responsável pela compra
dos dromedários, das celas, da comida e por empregar os cameleiros.
Continuo propondo esse gênero de expedição, mas a guerra em Darfour
complicou muito a situação. Minhas explorações me levaram às regiões
de Darfour, Kordofan, aos Montes Nouba, sempre lentamente, no ritmo
dos nômades e dos camponeses, em lombo de cavalo, dromedário, de caminhão
ou a pé.
FB
– E quais foram as suas impressões durante essa aventura?
CI – Minhas impressões se parecem com aquelas descritas pelos
viajantes ocidentais há muitos séculos. Eu descubro territórios, sociedades
desconhecidas e pouco exploradas. Lá onde eu vivo no Sudão, sobretudo
em Darfour, muitas pessoas jamais tinham visto um homem branco antes
da minha chegada. O território sudanês é descrito apenas por alguns
antigos viajantes até o ano de 1900. Pouco depois da Independência,
em 1956, as únicas informações que nos chegavam eram essencialmente
transmitidas em vídeos nos quais podíamos observar, sobretudo, imagens
das guerras locais. Esse país continua desconhecido, porque a urgência
da Imprensa não oferece esse luxo que eu tenho: o de viver bastante
tempo nessa região e continuar a freqüentar ano após ano Darfour, lugar
onde quase ninguém vai.
FB
– Quantos anos foram necessários para reunir todas essas imagens e por
que você escolheu fotografar em preto-e-branco?
CI – Foram necessários dez anos de trabalho para reunir todas
as imagens. Eu caminhei pela primeira vez em solo sudanês há oito anos.
Em primeiro lugar, queria saber sobre o mercado egípcio, do outro lado
da rota. Depois da sua origem, em Darfour. Cada vez que vou, fico entre
três e seis meses na mesma região. Retorno regularmente aos mesmos lugares
e observo todas as transformações. Em relação às cores, o mundo é colorido,
e seria lógico descrevê-lo assim. Mas freqüentemente a cor desvia a
atenção do leitor, perturba. O preto-e-branco me permite ir direto ao
ponto. Utilizo a cor quando ela é indispensável para a descrição ou
quando contribui para a compreensão da situação retratada na imagem.
Hoje, todas as imagens produzidas no Sudão fazem parte do arquivo da
associação Elnour (luz, em árabe), fundada por mim. É uma espécie de
agência que agrupa fotos, vídeos, documentos históricos e científicos
sobre a região – muitos relacionados à Rota dos Quarenta Dias, mas também
sobre o conjunto do país. No momento, estamos em busca de financiamento
para colocar todo esse material disponível na internet. Já digitalizamos
20 mil imagens antigas e modernas, mais de 80 filmes e 300 livros, além
de trabalhos de pesquisa ligados ao Sudão. Os primeiros arquivos poderão
ser consultados no site www.elnour.net antes do fim de 2007.
FB
– Que mensagem você deseja transmitir por meio de suas fotos?
CI – Se tivesse uma mensagem, seria subliminar. Eu tento documentar
o mundo no qual vivo, distante das alegorias do fast-food fotográfico,
que se impõe cada vez mais ao nosso cotidiano. Meus trabalhos não procuram
convencer, porque eu não detenho a verdade, mas eles tentam expor, descrever,
traduzir, mostrar meu ponto de vista. Para restituir uma visão humana
das sociedades que visito, utilizo uma técnica simples: objetivas standards
sem deformação ótica. Eu fotografo os detalhes; na verdade, os acumulo,
os coleciono. Registro, dato, anoto o nome dos homens, suas palavras,
lugares, tribos e clãs. Constituo assim uma coleção que se torna meu
vocabulário. A organização das imagens para uma exposição ou para compôr
uma publicação é uma gramática. Ela nos dá uma escrita descritiva. Espero
que essa mostra provoque a curiosidade do leitor tanto quanto evoque
suas questões relativas ao mundo.
FB
– Você pretende refazer a Rota dos Quarenta Dias?
CI – A última notícia que tenho é a de que as caravanas retomaram
seu tráfego habitual em Darfour. Isso me permite considerar que muito
brevemente estarei em uma nova expedição ao caminho que leva à Rota
dos Quarenta Dias.