CLASSIFICAÇÃO POSITIVA
Conforme análise do Banco Central, as condições favoráveis das contas externas brasileiras – com o aumento das reservas internacionais e a redução do endividamento – possibilitam que o país alcance o investment grade (grau de investimento) no médio prazo. Esse grau de investimento é a classificação concedida por agências internacionais de avaliação de risco (como a Moody’s, a Standard and Poors e a Fitch) aos países que oferecem baixa ameaça de calote. Para a atribuição de notas, classificadas em grupos pelas agências, a análise se baseia na situação macroeconômica e financeira do país.
O cálculo do Produto Interno Bruto (PIB) pode ser um dos fatores considerados. Ao conseguirem a classificação, os países qualificam-se para obter maior volume de investimento externo. Os fundos de pensão dos Estados Unidos, que são importantes investidores mundiais, por exemplo, só podem comprar títulos de países que tenham obtido o investment grade. China, Coréia do Sul, Chile, Malásia, México, Tailândia e Rússia já puderam ingressar nesse grupo, mas o Brasil nunca chegou lá.
Está a três ou quatro notas do grau de investimento, dependendo da agência de risco.
    
    

FINANÇAS

CENÁRIO FAVORÁVEL

Paula Monteiro




   
   
     
     
          
 Nº 282
Maio/Junho 2007
 
 
  Tour de France  
Inflação baixa, tendência de queda na taxa de juros e classificação positiva das agências internacionais de avaliação de risco atraem para o Brasil investimentos de grandes grupos estrangeiros, em especial do setor de crédito
  Matéria de Capa  

A melhora dos indicadores socioeconômicos no Brasil em conseqüência de avanços como a inflação baixa, a dívida pública em queda e a aceleração do crescimento – ainda que lenta e distante dos padrões asiáticos – tornou-se um atrativo para o mercado de crédito, em atual fase de expansão. Esta é a avaliação feita por Everton Gonçalves, assessor econômico da Associação Brasileira de Bancos Comerciais (ABBC), que aponta a redução da pobreza no país e o ambiente democrático no cenário político como alguns dos fatores favoráveis ao aumento dos investimentos da indústria financeira, inclusive de capital estrangeiro.

Apesar de ainda representar um empecilho para o crescimento mais acelerado das operações de mercado de crédito, a taxa real de juros no país, considerada elevada – na faixa de 9% a 10% –, tende a cair com a manutenção desse quadro favorável. “A minha expectativa é a de que essa taxa seja reduzida a um índice de 5% no prazo de um ano ou pouco mais, o que possibilitará maior alocação de recursos para o setor privado”, conta Gonçalves.

Além disso, o país encontra-se próximo do investment grade – classificação concedida por agências internacionais de avaliação de risco (ver boxe na pág. 49). “As vulnerabilidades são menos significativas e o mercado já antecipa essa possibilidade de atingir o grau de investimento, como indica a redução mais acelerada do prêmio de risco do Brasil em relação aos países emergentes”, diz o assessor econômico. Trata-se de um item importante para a decisão dos grupos estrangeiros, uma vez que qualquer investidor leva em consideração o binômio retorno-risco na hora de alocar seus recursos.

E há que se considerar ainda as reformas microeconômicas do país. “Aliadas a variáveis macroeconômicas – como a tendência de queda da taxa de juros e da dívida interna líquida –, tais reformas, que incluem a criação do crédito consignado e a nova lei de falências, além do instrumento de alienação fiduciária, permitem a expansão em setores antes marginalizados do sistema financeiro”, analisa.

De acordo com o assessor econômico, os últimos balanços da ABBC indicam que as instituições financeiras que operaram no segmento das pessoas físicas obtiveram as melhores performances. Principalmente, as que operacionalizaram as carteiras de crédito consignado aos aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). “A população de baixa renda ainda é uma janela atrativa no mercado de crédito e o acesso eficiente a tais segmentos se mostra um grande desafio para as instituições financeiras”.

O nicho de pequenas e médias empresas também tem-se mostrado uma fonte potencial para obtenção de lucros. “A aceleração do crescimento econômico e, principalmente, a sua sustentabilidade vão ampliar as possibilidades das empresas, que demandarão mais crédito, emissão de títulos de dívida e assessoria em processos de abertura de capital”, diz Gonçalves. Em sua opinião, a especialização em tais nichos será, sem dúvida, um diferencial competitivo para as instituições financeiras.

Ciente do cenário favorável, o grupo francês Société Générale vem anunciando, nos últimos tempos, importantes investimentos na aquisição de bancos de porte menor para ampliar sua atuação no país. Com operações no Brasil desde 1967, o grupo resolveu, há pouco mais de um ano, apostar no mercado de crédito ao consumidor.

O primeiro passo nessa direção foi a aquisição do Banco Pecúnia. “A negociação foi amigável e durou aproximadamente seis meses. O contrato foi assinado em março de 2006, mas a operação efetivada no início deste ano”, conta François Alain Dossa, presidente do Banco SG Brasil. O montante investido na compra do Pecúnia, conforme o executivo, foi equivalente a uma vez e meia o valor de seu patrimônio líquido – cerca de R$ 54 milhões. Com aproximadamente 3 mil pontos-de-venda, o Pecúnia também registrava operações de crédito da ordem de R$ 141 milhões.

Avaliando que o mercado de crédito ao consumidor no Brasil deve crescer muito nos próximos anos, o Société Générale pretende expandir sua atuação nesse ramo, ingressando também na área de crédito consignado para aposentados e funcionários públicos. Com esse objetivo, o grupo resolveu investir na compra do Banco Cacique, negociada este ano por R$ 330 milhões. “O Cacique tem cerca de 140 lojas próprias, mais de 5.700 pontos-de-venda e uma carteira de crédito de R$ 880 milhões”, revela Dossa, analisando que aquisições como essas são interessantes por várias razões: “São empresas com grande know-how e forte potencial de crescimento”.

Especializado originalmente em financiamentos e investimentos para grandes empresas, desde os estruturados – nas áreas de comércio exterior, de projetos, de aquisições, de importação de equipamentos com agências de fomento à exportação (ECA's), securitizações, mercado de capitais etc. – até os de capital de giro – como cartas de crédito, garantias, empréstimos em dólares e reais etc. – o Banco SG Brasil fechou o ano de 2006 com um patrimônio líquido de R$ 208,6 milhões. O capital social no período foi de R$ 319,7 milhões e os ativos totais da ordem de R$ 1,133 bilhão.

Participação ampliada – Diante da tendência de queda na taxa de juros e da necessidade de a classe média brasileira buscar financiamentos para a compra da casa própria, o grupo BNP Paribas – presente há mais de 50 anos no Brasil – avalia, por sua vez, a possibilidade de ingresso nas áreas de crédito imobiliário e de homebroker no país. Se a decisão, que deve ser tomada até o segundo semestre deste ano, for favorável à inserção nesses dois segmentos, o grupo passará a atuar por aqui também por meio das empresas União de Créditos Imobiliários (UCI) e Cortal Consors – especializada na venda de produtos de investimento pela internet.

“São empresas do grupo com tecnologias específicas nessas áreas e presença marcante na Europa”, afirma Bernard Mencier, presidente do BNP Paribas Brasil. Atualmente, o banco representa apenas uma das frentes de atuação do grupo no país, onde também opera por meio da Asset Management (administradora de recursos de terceiros), da financeira Cetelem, da administradora Cardif e da Arval (administradora de frotas). São empresas que, conforme Mencier, funcionam de maneira coordenada, somando 1.500 funcionários e um patrimônio líquido da ordem de R$ 1 bilhão no país.

“A atuação da UCI no Brasil poderá ser direta, por meio de filiais próprias, enquanto a vinda da Cortal Consors poderá ocorrer por meio de parcerias ou de aquisições”, conta Mencier, destacando que o país é considerado prioritário para os investimentos do grupo BNP na América Latina. “A situação de queda nos juros, a partir da qual está se construindo o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), tem nos levado a reavaliar nossa atuação como banco de financiamento de investidores, de exportações e de projetos, e a estabelecer novas metas”.

Em médio prazo, conforme revela Mencier, a intenção é ampliar a atuação do BNP no mercado de capitais nacionais, voltando o atendimento, atualmente restrito a grandes corporações, também para empresas de médio porte. “É um projeto que vai levar um certo tempo para ser implementado, uma vez que o atendimento a pequenos e médios clientes corporativos demanda uma estrutura bem mais reforçada nas operações do banco e da Asset Management”, pondera. Já a Arval Brasil – empresa do grupo que opera com gerenciamento e aluguel de frotas leves no segmento corporate – deve investir R$ 360 milhões no país, visando a conquistar, até setembro de 2009, a gestão de 5 mil carros.

Com a estratégia de promover um expressivo aumento nas linhas de crédito para o Brasil, seja no financiamento de projetos e ao comércio exterior seja em operações de tesouraria e mercado de capitais, o grupo Crédit Agricole também tem feito investimentos consideráveis. No ano passado, com a inserção de US$ 100 milhões no país, a companhia triplicou o capital do seu braço de atacado – o Banco Calyon Brasil –, que passou a operar com US$ 150 milhões. “Refeita a confiança do grupo no país, a meta é alavancar o uso do balanço local para operações de empréstimo e derivativos para nossos quatro tipos de clientes: grandes corporações, instituições financeiras, filiais de multinacionais e empresas do setor de agronegócios”, afirma David Jana, diretor-presidente do Banco Calyon Brasil.

Por sinal, um dos desafios da instituição financeira de atacado, com ativos da ordem US$ 250 milhões no Brasil – afora as operações internacionais com clientes brasileiros –, é o de ampliar, quase para o dobro, a sua participação de mercado em relação a empresas de peso. “Pretendemos chegar, até o fim deste ano, à marca de cem clientes, entre grandes bancos e corporações”, afirma Jana. Os esforços para fortalecer a atuação do banco, de acordo com o executivo, devem voltar-se para os setores de soft commodities (especialmente açúcar e álcool), hard commodities (aço, mineração, óleo e gás), telecomunicações, transporte aéreo e infra-estrutura em geral.

“De um lado, o Calyon é um dos players mundiais nessas áreas, enquanto de outro, o Brasil é produtor mundial em alta escala, e a baixo custo, de algumas dessas commodities”, afirma Jana, avaliando também a expectativa de crescimento do mercado de etanol e o interesse de grandes empresas brasileiras desses setores em investir fora do país. Entre os produtos oferecidos pelo banco nesses segmentos estão empréstimos estruturados em médio e em longo prazo, derivativos, assessoria financeira, financiamento de aquisições e empréstimos sindicalizados.

Entre as operações que o Banco Calyon Brasil liderou no país nos últimos meses, conforme o executivo, estão: um empréstimo sindicalizado de US$ 400 milhões para a Gerdau; um empréstimo sindicalizado de US$ 100 milhões para a Embratel; um financiamento de exportação e uma apólice para a TAM (nos valores de US$ 369 milhões e de US$ 300 milhões, respectivamente), e um financiamento-ponte de US$ 1,2 bilhão para a Braskem.

Genuinamente brasileiro e em atividade desde 1991 – quando iniciou operações típicas de tesouraria com um patrimônio líquido equivalente a US$ 35 milhões –, o Banco Votorantim chega próximo aos 16 anos de funcionamento com excelente nível de crescimento. Em março, o anúncio do balanço consolidado da instituição financeira, referente ao exercício de 2006, revelou números de um gigante: ativos totais de US$ 26 bilhões (ou R$ 56,6 bilhões), depósitos totais de US$ 9 bilhões, carteira de crédito de US$ 8 bilhões e mais de 3 mil funcionários.

Tais resultados ratificam o desempenho do banco, que ao longo dos anos vem implantando diversas unidades de negócios, com atuação em segmentos como o de grandes empresas, área institucional, asset management e financeira. Em 2006, por exemplo, o processo de ampliação da presença da instituição ocorreu por meio da implantação de 43 novas unidades, entre filiais e lojas próprias. Dessa forma, chegou ao fim do ano passado com 99 unidades em 17 estados brasileiros.

Evolução da carteira – O lucro líquido da instituição financeira no exercício de 2006 foi de cerca de R$ 1 bilhão, enquanto o patrimônio cresceu 25% no ano, evoluindo dos R$ 4 bilhões em 2005 para R$ 5 bilhões. De acordo com a assessoria do banco, merece destaque a evolução da carteira consolidada de empréstimos, que cresceu 38% em 2006, totalizando R$ 16,8 bilhões, excluindo-se fianças e avais. O principal contribuinte para esse resultado foi o segmento de crédito direto ao consumidor, que cresceu 41,5%, atingindo um montante na carteira de R$ 10,6 bilhões.

Já a BV Financeira ampliou a participação no financiamento de veículos, alcançando 15% da fatia do mercado (market share). No total, as operações da BV financeira encerraram o ano de 2006 com 1,75 milhão de clientes ativos. Um expressivo crescimento também foi registrado no segmento de crédito para companhias com faturamento anual de até R$ 500 milhões. Em 2006, a carteira desse segmento atingiu saldo de R$ 1 bilhão, ante os R$ 131 milhões no ano anterior.

Em agosto, o Banco Votorantim Securities, Inc. – subsidiária do Banco Votorantim – teve seu registro aprovado como broker-dealer (corretora) na Securities and Exchange Comission (SEC), sendo autorizado a operar no mercado norte-americano.

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