ENTREVISTA
GINA PALADINO

Para a diretora do Instituto Euvaldo Lodi do Paraná, um dos grandes desafios dos países europeus é o de seguir a trilha da sociedade americana, que consegue transformar conhecimento científico em riqueza e criar novos produtos, processos e tecnologias

Françoise Terzian

 

IDÉIAS QUE GERAM LUCRO

   
 Nº 283
Julho/Agosto 2007
 
 
  Tour de France

Muitas inovações desenvolvidas nos Estados Unidos são criadas a partir de idéias de especialistas franceses. Anualmente, cerca de dez mil engenheiros e cientistas do país seguem para a terra do Tio Sam com o objetivo de estudar, trabalhar e avançar em suas pesquisas. Nem todos retornam, o que causa uma “perda de cérebros” (brain dame) para a nação francesa. Durante sete meses de viagem pela Europa, principalmente entre a França e a Inglaterra, a economista Gina Gulineli Paladino, assessora do sistema Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná) e diretora do Instituto Euvaldo Lodi do Paraná, visitou um grande número de empresas, organizações públicas e privadas e conversou com pessoas envolvidas em projetos pioneiros nas áreas de ciência, tecnologia, inovação, educação corporativa, entre outras. Sua experiência resultou no livro Empreendimentos Inovadores – Relatos de uma Jornada na Europa. Nesta entrevista concedida à revista França Brasil, Gina fala sobre as similaridades entre as leis da inovação dos dois países, a respeito do desafio da França de aumentar a velocidade da transferência de conhecimento e sobre as ações do governo francês para atrair de volta ao país pesquisadores e cientistas que hoje atuam nos Estados Unidos e na Inglaterra.

Revista França Brasil – Quando se fala em inovação, pensamos em primeiro lugar nos EUA. E a França? O país pode ser considerado um pólo de inovação?
Gina Gulineli Paladino – Sim, a França é um país extremamente inovador e muito criativo. Essas características estão impregnadas em sua cultura. Para os latinos e, principalmente, os brasileiros, o jeito francês de inovar e criar é altamente inspirador. Veja o caso da Lei de Inovação Tecnológica Brasileira de 2004. Ela foi totalmente baseada na Lei sobre Inovação e Pesquisa Francesa, que é de 1999.

FB – Há muitas similaridades entre as duas leis?
GP – Sim. Há pontos muito semelhantes, o que inclui toda discussão em relação às universidades e a forma pela qual elas podem ser inseridas no meio produtivo. Na estrutura da lei francesa, o ensino superior desempenha papel fundamental. O ponto de partida foi o de dar liberdade a instituições estatais e a pesquisadores a elas associados de envolverem-se em projetos financiados e controlados por companhias privadas. Isso foi proposto porque, historicamente, a academia francesa é mais distanciada do mundo da produção do que os países anglo-saxões, como a Inglaterra e os Estados Unidos. Por esse motivo, a criação de uma lei de inovação foi absolutamente necessária. Nos Estados Unidos, por exemplo, não existe lei de inovação. Ela é tipicamente francesa.

FB – Então a França tem observado um crescimento cada vez maior na relação empresa-universidade?
GP – Sim. Na França, esse crescimento tem-se tornado cada vez mais visível ao longo dos últimos anos. Isso vem ocorrendo por uma série de fatores, como o aumento da concorrência asiática e global e a necessidade de manter a estabilidade no mercado de trabalho. Para isso, o país tem a Association Bernard Grégory (ABG), criada em 1980 – um bem-sucedido exemplo mundial. Sua missão é promover a formação para a pesquisa do mundo socioeconômico e auxiliar na inserção de jovens doutores de todas as disciplinas nas empresas.

FB – O problema do país é de formação ou de criação de empregos?
GP – A França forma dez mil doutores por ano. No entanto, as universidades não conseguem absorver todo esse contingente, fazendo com que parte desses profissionais seja incorporada pelas indústrias, ONG's, governos provinciais, entre outros. O problema é que eles são formados para atuar como acadêmicos e há uma dificuldade visível para mudar esta formação. Daí a importância da ABG, que foi fundada para ajudar a elaborar mecanismos de colocação de tantos doutores nas empresas. Ela ajuda a entender a competência dos formados e a criar uma série de oportunidades.

FB – Por conta dessa aparente falta de oportunidade há muita perda de talentos franceses para outros países?
GP – Cerca de dez mil engenheiros e cientistas franceses seguem para os Estados Unidos anualmente. Isso não significa que eles se mudem definitivamente. Eles rumam para o país a fim de fazer doutorado, estágio de pesquisa, dar aula, escrever um livro em parceria com alguém ou trabalhar em alguma companhia americana. O que os atrai são as escolas e os laboratórios de pesquisa de alta qualidade, a experiência internacional e o mercado de trabalho, que oferece uma remuneração em média maior do que a francesa. Uns vão para ficar três anos e acabam permanecendo cinco. A maioria volta; o restante não. Sabe-se que o brain dame (perda de cérebros) é muito alto. Em busca da repatriação de profissionais, a França criou o Forum USA, um evento anual de emprego da Embaixada da França nos Estados Unidos. Trata-se de um instrumento que auxilia as empresas francesas a identificar e contratar talentos de alto nível no mercado americano. A idéia é incorporá-los às organizações francesas, seja nos Estados Unidos ou na França.

FB – Os profissionais que regressam para a França devem trazer uma bagagem interessante.
GP – Enquanto residem nos Estados Unidos, eles são treinados também na cultura norte-americana, considerada fundamental para as empresas francesas de base tecnológica e voltadas para o desenvolvimento internacional, bem como para entidades de ensino e pesquisa e de desenvolvimento regional da França.

FB – Esse contingente também é incorporado pelas pequenas e médias empresas francesas?
GP – Sim. A necessidade crescente das pequenas e médias companhias de incorporar profissionais qualificados das áreas científicas e tecnológicas, e com experiência internacional, levou o Forum USA a se associar à Agência Francesa de Inovação (Anvar) e a apoiar a participação dessas empresas. O Forum USA também é utilizado pela Anvar para divulgar os instrumentos franceses de apoio à criação de empresas inovadoras. Trata-se de uma importante infra-estrutura institucional e financeira, que facilita o repatriamento dos talentos franceses sediados nos Estados Unidos e interessados em criar e desenvolver seus próprios empreendimentos na França.

FB – Até que ponto a França avança em relação à concorrência global?
GP – O país está avançando muito em decorrência da competição acirrada entre as empresas no mundo todo. A França está ciente de que, para suas companhias manterem-se competitivas, é preciso investir em tecnologia e pesquisa e incorporar recursos humanos cada vez mais qualificados. É inevitável admitir que os Estados Unidos continuam a operar numa velocidade enorme e com uma grande competência na transformação de conhecimento em riqueza. Um dos maiores desafios de países europeus como a França é seguir a trilha da sociedade americana, que consegue gerar novos produtos, processos e tecnologia numa velocidade incrível. Inovação não é uma escolha, mas uma obrigação. Por isso, a França tem usado mecanismos para acelerar o processo de inovação, como a criação da ABG e de muitos parques tecnológicos, incubadoras e pólos. Todas essas ações funcionam como instrumentos para acelerar a transferência de conhecimento.

FB – Qual o papel da universidade nesta fase de transformação?
GP – A universidade é um elemento muito importante, mas não é o elemento fundamental. As empresas e indústrias desenvolvem projetos de tecnologia e geram inovações internamente ou em parceria com terceiros. No entanto, deve ficar claro para a companhia que ela não será salva pelo conhecimento e pela transferência da tecnologia que vem da universidade. A empresa por si só deve ser inovadora e ter uma dinâmica, uma estratégia, para desenvolver novas tecnologias e produtos.
FB – Qual a participação e a importância das empresas nas universidades francesas? GP – As três universidades tecnológicas francesas, que são públicas, têm no seu estatuto uma autorização na qual pode-se ter até 30% do seu quadro de professores contratados do mercado de trabalho. Ou seja, das empresas. Esta idéia é genial, pois não dá para criar uma universidade de ponta e fechá-la como uma reserva de mercado do conhecimento.

FB – A inovação depende do quê?
GP – De cérebro e de recurso humano altamente motivado, qualificado e ativo. A China percebeu isso e está montando um batalhão de gente para trabalhar no mundo da produção. Na França, eu acho que o desafio da inovação está no aumento da velocidade da transferência de conhecimento, o que levará à geração de riqueza. No caso do Brasil, a necessidade está no reforço do ensino básico, médio e técnico. Nosso país precisa olhar para a educação em todos os níveis se quiser ser agressivamente inovador.

 
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