Muitas
inovações desenvolvidas nos Estados Unidos são criadas a partir de idéias
de especialistas franceses. Anualmente, cerca de dez mil engenheiros
e cientistas do país seguem para a terra do Tio Sam com o objetivo de
estudar, trabalhar e avançar em suas pesquisas. Nem todos retornam,
o que causa uma “perda de cérebros” (brain dame) para a nação francesa.
Durante sete meses de viagem pela Europa, principalmente entre a França
e a Inglaterra, a economista Gina Gulineli Paladino, assessora do sistema
Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná) e diretora do Instituto
Euvaldo Lodi do Paraná, visitou um grande número de empresas, organizações
públicas e privadas e conversou com pessoas envolvidas em projetos pioneiros
nas áreas de ciência, tecnologia, inovação, educação corporativa, entre
outras. Sua experiência resultou no livro Empreendimentos Inovadores
– Relatos de uma Jornada na Europa. Nesta entrevista concedida à revista
França Brasil, Gina fala sobre as similaridades entre as leis da inovação
dos dois países, a respeito do desafio da França de aumentar a velocidade
da transferência de conhecimento e sobre as ações do governo francês
para atrair de volta ao país pesquisadores e cientistas que hoje atuam
nos Estados Unidos e na Inglaterra.
Revista
França Brasil – Quando se fala em inovação, pensamos em primeiro
lugar nos EUA. E a França? O país pode ser considerado um pólo de inovação?
Gina Gulineli
Paladino – Sim, a França é um país extremamente inovador e muito
criativo. Essas características estão impregnadas em sua cultura. Para
os latinos e, principalmente, os brasileiros, o jeito francês de inovar
e criar é altamente inspirador. Veja o caso da Lei de Inovação Tecnológica
Brasileira de 2004. Ela foi totalmente baseada na Lei sobre Inovação
e Pesquisa Francesa, que é de 1999.
FB
– Há muitas similaridades entre as duas leis?
GP – Sim. Há pontos muito semelhantes, o que inclui toda discussão
em relação às universidades e a forma pela qual elas podem ser inseridas
no meio produtivo. Na estrutura da lei francesa, o ensino superior desempenha
papel fundamental. O ponto de partida foi o de dar liberdade a instituições
estatais e a pesquisadores a elas associados de envolverem-se em projetos
financiados e controlados por companhias privadas. Isso foi proposto
porque, historicamente, a academia francesa é mais distanciada do mundo
da produção do que os países anglo-saxões, como a Inglaterra e os Estados
Unidos. Por esse motivo, a criação de uma lei de inovação foi absolutamente
necessária. Nos Estados Unidos, por exemplo, não existe lei de inovação.
Ela é tipicamente francesa.
FB
– Então a França tem observado um crescimento cada vez maior na relação
empresa-universidade?
GP – Sim. Na França, esse crescimento tem-se tornado cada vez
mais visível ao longo dos últimos anos. Isso vem ocorrendo por uma série
de fatores, como o aumento da concorrência asiática e global e a necessidade
de manter a estabilidade no mercado de trabalho. Para isso, o país tem
a Association Bernard Grégory (ABG), criada em 1980 – um bem-sucedido
exemplo mundial. Sua missão é promover a formação para a pesquisa do
mundo socioeconômico e auxiliar na inserção de jovens doutores de todas
as disciplinas nas empresas.
FB
– O problema do país é de formação ou de criação de empregos?
GP – A França forma dez mil doutores por ano. No entanto, as
universidades não conseguem absorver todo esse contingente, fazendo
com que parte desses profissionais seja incorporada pelas indústrias,
ONG's, governos provinciais, entre outros. O problema é que eles são
formados para atuar como acadêmicos e há uma dificuldade visível para
mudar esta formação. Daí a importância da ABG, que foi fundada para
ajudar a elaborar mecanismos de colocação de tantos doutores nas empresas.
Ela ajuda a entender a competência dos formados e a criar uma série
de oportunidades.
FB
– Por conta dessa aparente falta de oportunidade há muita perda de talentos
franceses para outros países?
GP – Cerca de dez mil engenheiros e cientistas franceses seguem
para os Estados Unidos anualmente. Isso não significa que eles se mudem
definitivamente. Eles rumam para o país a fim de fazer doutorado, estágio
de pesquisa, dar aula, escrever um livro em parceria com alguém ou trabalhar
em alguma companhia americana. O que os atrai são as escolas e os laboratórios
de pesquisa de alta qualidade, a experiência internacional e o mercado
de trabalho, que oferece uma remuneração em média maior do que a francesa.
Uns vão para ficar três anos e acabam permanecendo cinco. A maioria
volta; o restante não. Sabe-se que o brain dame (perda de cérebros)
é muito alto. Em busca da repatriação de profissionais, a França criou
o Forum USA, um evento anual de emprego da Embaixada da França nos Estados
Unidos. Trata-se de um instrumento que auxilia as empresas francesas
a identificar e contratar talentos de alto nível no mercado americano.
A idéia é incorporá-los às organizações francesas, seja nos Estados
Unidos ou na França.
FB
– Os profissionais que regressam para a França devem trazer uma bagagem
interessante.
GP – Enquanto residem nos Estados Unidos, eles são treinados
também na cultura norte-americana, considerada fundamental para as empresas
francesas de base tecnológica e voltadas para o desenvolvimento internacional,
bem como para entidades de ensino e pesquisa e de desenvolvimento regional
da França.
FB
– Esse contingente também é incorporado pelas pequenas e médias empresas
francesas?
GP – Sim. A necessidade crescente das pequenas e médias companhias
de incorporar profissionais qualificados das áreas científicas e tecnológicas,
e com experiência internacional, levou o Forum USA a se associar à Agência
Francesa de Inovação (Anvar) e a apoiar a participação dessas empresas.
O Forum USA também é utilizado pela Anvar para divulgar os instrumentos
franceses de apoio à criação de empresas inovadoras. Trata-se de uma
importante infra-estrutura institucional e financeira, que facilita
o repatriamento dos talentos franceses sediados nos Estados Unidos e
interessados em criar e desenvolver seus próprios empreendimentos na
França.
FB
– Até que ponto a França avança em relação à concorrência global?
GP – O país está avançando muito em decorrência da competição
acirrada entre as empresas no mundo todo. A França está ciente de que,
para suas companhias manterem-se competitivas, é preciso investir em
tecnologia e pesquisa e incorporar recursos humanos cada vez mais qualificados.
É inevitável admitir que os Estados Unidos continuam a operar numa velocidade
enorme e com uma grande competência na transformação de conhecimento
em riqueza. Um dos maiores desafios de países europeus como a França
é seguir a trilha da sociedade americana, que consegue gerar novos produtos,
processos e tecnologia numa velocidade incrível. Inovação não é uma
escolha, mas uma obrigação. Por isso, a França tem usado mecanismos
para acelerar o processo de inovação, como a criação da ABG e de muitos
parques tecnológicos, incubadoras e pólos. Todas essas ações funcionam
como instrumentos para acelerar a transferência de conhecimento.
FB
– Qual o papel da universidade nesta fase de transformação?
GP – A universidade é um elemento muito importante, mas não é
o elemento fundamental. As empresas e indústrias desenvolvem projetos
de tecnologia e geram inovações internamente ou em parceria com terceiros.
No entanto, deve ficar claro para a companhia que ela não será salva
pelo conhecimento e pela transferência da tecnologia que vem da universidade.
A empresa por si só deve ser inovadora e ter uma dinâmica, uma estratégia,
para desenvolver novas tecnologias e produtos.
FB – Qual a participação e a importância das empresas nas universidades
francesas? GP – As três universidades tecnológicas francesas, que são
públicas, têm no seu estatuto uma autorização na qual pode-se ter até
30% do seu quadro de professores contratados do mercado de trabalho.
Ou seja, das empresas. Esta idéia é genial, pois não dá para criar uma
universidade de ponta e fechá-la como uma reserva de mercado do conhecimento.
FB
– A inovação depende do quê?
GP
– De cérebro e de recurso humano altamente motivado, qualificado e ativo.
A China percebeu isso e está montando um batalhão de gente para trabalhar
no mundo da produção. Na França, eu acho que o desafio da inovação está
no aumento da velocidade da transferência de conhecimento, o que levará
à geração de riqueza. No caso do Brasil, a necessidade está no reforço
do ensino básico, médio e técnico. Nosso país precisa olhar para a educação
em todos os níveis se quiser ser agressivamente inovador.