ROTEIRO DO SABOR
Na França, a produção de doces relacionados com tradições religiosas, eventos históricos ou culturais é feita, na grande maioria das vezes, de maneira totalmente artesanal e com receitas criadas há séculos. Confira os produtos fabricados até hoje em diferentes regiões da França, além dos calissons.

Anis de Flavigny – Pastilha produzida a partir de um grão de anis que é coberto por um xarope de açúcar em diferentes sabores: jasmim, menta, laranja, limão, café, violeta, canela, entre outros. Diversas lendas cercam a origem do doce, que é fabricado na cidade de Flavigny-sur-Ozerain. Entre elas, a de que o Anis teria sido trazido pelas legiões de Júlio César ou fabricado pelos monges beneditinos por volta do século 8.

Bergamote de Nancy –Especialidade exclusiva da cidade de Nancy, esta bala translúcida e dourada foi inventada em meados do século 19 por Jean-Frédéric Lillich. O açúcar é levado diretamente ao fogo, para que, em seguida, seja adicionado o óleo natural de bergamota. As qualidades desse doce o levaram a receber o selo IGP (Indicação Geográfica Protegida) para a região de Lorraine.

Berlingot nantais – O Berlingot da cidade de Nantes é um dos mais conhecidos da França. Essas balas caramelizadas de formato piramidal teriam surgido por volta de 1830, trazidas da Itália por um comerciante que vendia doces chamados de berlingozzo. Graças à presença do açúcar das Antilhas na França, a idéia do berlingot prosperou na região.

Canelé de Bordeaux – Pequeno bolo aromatizado com rum e baunilha, macio por dentro e com uma cobertura crocante de caramelo. Esta especialidade típica da cidade de Bordeaux é assada em uma fôrma com sulcos, o que dá origem ao formato canelado do doce. Consumido desde o século 17, o canelé foi criado pelas irmãs do Convento de Annonciades, que produziam o bolo para alimentar a população carente.

Cocon de Lyon – Criado para homenagear os fabricantes de seda, que fizeram durante muito tempo a fortuna da cidade de Lyon, o cocon é um doce à base de amêndoa, aromatizado com diferentes sabores. Em francês, seu nome significa “casulo”, resultado do formato semelhante ao invólucro do bicho-da-seda.

Coussin de Lyon – Este doce de forma quadricular e coloração esverdeada é produzido a partir de uma delicada mistura à base de chocolate e licor de Curaçao, envolvida por uma massa de amêndoas e açúcar. Originário de Lyon, o coussin – cuja tradução em português significa almofada – foi criado em homenagem a uma tradição iniciada em 1643. De acordo com a lenda, magistrados da cidade agradeciam o fim de uma epidemia levando homenagens à Virgem Maria sob uma almofada de seda.

Forestine de Bourges – Bala recheada por uma massa cozida, feita de amêndoas e chocolate. Ela foi criada em 1879 e recebeu esse nome em razão do sobrenome do seu inventor: Georges Forrest. A Forestine pertence ao patrimônio da cidade de Bourges e figura no inventário do Patrimônio Nacional de Especialidades Francesas em Confeitaria, Chocolate e Biscoitos.

Macarons – Existem diferentes versões para o macaron, um biscoito fabricado de farinha de amêndoa, açúcar de confeiteiro e clara de ovos. Com sua origem na Itália, o doce teria sido introduzido na França no século 16. O macaron de Nancy passou a ter esse nome quando irmãs da congregação Dames du Saint-Sacrement descobriram a receita original, mantida em segredo. Já a versão dos macarons de Boulay surgiu em 1854, mantendo a característica original: crocante por fora e macio por dentro.

Navette marseillaise – Biscoito nos sabores laranja ou limão, cuja forma cilíndrica lembra um barco. Intimamente ligada à cidade de Marseille, a navette foi criada em homenagem à embarcação que teria trazido personagens santos da Palestina até a cidade francesa há mais de dois mil anos. Atualmente, a data é lembrada com uma festa tradicional, na qual os biscoitos são benzidos.

Négus de Nevers – Este pequeno chocolate banhado de calda de açúcar foi criado em 1901 pelo confeiteiro Grelier, em homenagem ao Imperador Négus Ménélik da Etiópia, que visitava a cidade de Nevers (Bourgogne).

Niniche – Bala em forma de cilindro produzida tradicionalmente na cidade de Quiberon, na Bretanha. Elas são fabricadas a partir de caramelo e manteiga e recebem o aroma natural de frutas. O criador do doce é Raymond Audebert, cuja família mantém ainda hoje uma produção artesanal na Maison d'Armorine.

Nougat de Montélimar – Fabricado desde a Antigüidade na Bacia Mediterrânea, o nougat chegou à França na Idade Média. A cidade de Montélimar se tornou a mais tradicional fabricante desse doce graças ao engenheiro-agrônomo Olivier de Serre, que desenvolveu a plantação de amendoeiras na região. Apesar das diferentes versões de nougat que existem no país, a receita original não mudou. O doce branco leva mel, açúcar, clara de ovos, amêndoa e pistache.

Pastille du Mineur – Originária da região de Nord-Pas-de-Calais, a Pastille du Mineur é uma bala fabricada a partir de extratos naturais de plantas. Foi criada por Georges Verquin, que viu nos trabalhadores de minério da região – normalmente afetados por doenças respiratórias – um bom mercado consumidor. A pastille também era usada como forma de compensar a vontade de fumar, ato proibido dentro das minas.

Pastilles de Vichy – O químico Jean-Pierre-Joseph d'Arcet foi o criador dessas famosas pastilhas digestivas, de forma octogonal, feitas a partir de açúcar e dos princípios ativos da água da cidade de Vichy. Arcet chegou a extrair esses princípios em 1825, por meio da
evaporação, com o objetivo de obter um medicamento que
ajudasse na digestão. Apreciadas pela Imperadora Eugénie,
as pastilhas de Vichy tiveram sua originalidade reconhecida
por decreto imperial.

    
    

GASTRONOMIA

DE GERAÇÃO PARA GERAÇÃO

Helena Kempf, especial da França




   
   
     
     
          
 Nº 283
Julho/Agosto 2007
 
 
  Tour de France  
Produzido desde o século 17 na cidade de Aix-en-Provence, no Sul da França, o calisson é uma especialidade gastronômica francesa fabricada até hoje, de maneira totalmente artesanal, por confeitarias tradicionais da região
  Matéria de Capa  

Um pequeno doce em forma de losango, mistura de açúcar, amêndoas e melão cristalizado sob uma base fina de hóstia, é uma das especialidades gastronômicas mais famosas da região da Provence, localizada no Sul da França. A origem do delicado calisson, uma iguaria francesa pouco conhecida em terras brasileiras – o produto é encontrado apenas no Empório Santa Maria, em São Paulo (www.emporiosantamaria.com.br), remonta ao século 17 e está estreitamente ligada à cidade de Aix-en-Provence, que, ainda hoje, produz o doce com a mesma receita original e de maneira totalmente artesanal por pequenos produtores locais.

A forte tradição do calisson em Aix se explica pela facilidade com que os ingredientes utilizados na sua fabricação eram encontrados na região. A cidade passou a ocupar um papel importante na distribuição da amêndoa após a introdução do seu cultivo por volta de 1600. “No início do século 17, o comércio mundial de amêndoas era discutido em uma sala nos fundos de um restaurante do lugar. Havia uma grande produção no planalto de Valensole, ao norte da cidade”, explica o diretor-presidente da Confiserie du Roy René, Maurice Farine. Ele conta que as frutas usadas no doce e o açúcar – produzido pelas colônias francesas e refinado em Marselha – também eram abundantes na Provence.

Questionado sobre o que há de mais provençal em um calisson, Farine não hesita em responder: “Tudo. A Provence é arte de viver, é sol, é prazer. Acredito que tudo isso está presente nessa especialidade gastronômica. Eu tenho o costume de dizer que, quando se experimenta um calisson, se escuta o som das cigarras na Cours Mirabeau”, explica o empresário, fazendo uma referência ao inseto encontrado em abundância na região e à rua mais famosa de Aix.

Apesar de o produto ter surgido na cidade no século 17, as primeiras confeitarias mecanizadas só começaram a funcionar na segunda metade de 1800. No início do século 20, já existiam cerca de 20 fábricas de caráter familiar produzindo o calisson, entre elas a Confiserie du Roy René (www.calisson.com), que fabrica desde 1920 o doce de maneira totalmente artesanal. Atualmente, o lugar também abriga um pequeno museu, aberto à visitação pública, onde ficam expostas as primeiras máquinas de ferro utilizadas para dar o formato ao produto.

“A maneira de se fabricar e os ingredientes usados são os mesmos, nada mudou. No que diz respeito ao maquinário, se tentou deixar o trabalho menos cansativo”, afirma Farine. De acordo com ele, um dos motivos para os preços elevados da iguaria francesa é a mão-de-obra exigida durante a sua produção. Farine explica que as máquinas facilitam o trabalho, mas a fabricação do doce só é possível por meio dos minuciosos e delicados gestos humanos. É por essa razão que o calisson segue ao longo dos séculos sendo considerado um produto artesanal.

Rígido controle – Se o apogeu do calisson se deu na Provence, a história do seu nome, por outro lado, pode ser remetida a outras regiões mediterrâneas. Sua origem possui diferentes interpretações, que são alimentadas por lendas e pela imaginação das gerações de famílias que trabalharam na produção da fina confiserie. Há registros de um doce feito de amêndoas e frutas cristalizadas durante a antigüidade greco-romana, sobretudo na Itália e na Grécia. A palavra grega “kalokos”, que significa “cobrir”, teria dado nome a uma espécie de biscoito coberto por uma hóstia, semelhante ao calisson. Outra versão religiosa prega que a denominação da especialidade culinária vem de uma deformação da linguagem litúrgica. Durante as cerimônias que comemoravam o fim da peste de 1630, os arcebispos apresentavam as hóstias benzidas em cálices e, no momento da comunhão, conclamavam os fiéis com a locução latina venite ad calicem (venham ao cálice), que, em provençal – língua falada na região –, foi distorcido para venes touti i calissoum (venham todos ao calisson). Anualmente, no início do mês de setembro, se comemora a Bênção dos Calissons na igreja Saint Jean-de-Malte, em Aix-en-Provence. A festa tem origem exatamente nas celebrações do fim da peste e nas promessas que Martelly, uma autoridade local, teria feito à Virgem de Seds para que protegesse a cidade da doença. Segundo a tradição, os doces benzidos protegem contra qualquer enfermidade.

Uma variante mais poética para o surgimento da palavra calisson conta que a nomenclatura teria aparecido em 1454, durante o casamento do Rei René com a rainha Jeane de Laval. Após provar um doce servido na festa, a severa e taciturna rainha sorriu. O motivo do bom humor teria sido pronunciado em provençal: di cali soun, que significa “são os carinhos”. Segundo Farine, existem calissons fabricados em outras regiões francesas, mas que não seguem o rígido controle de qualidade dos produtores da Provence. Para diferenciar o autêntico das imitações, a verdadeira receita de Aix segue um código de regras precisas, que foi criado por sete fabricantes da cidade.

Mel, baunilha e limão – Para os membros da União Francesa do Calisson de Aix-en-Provence (UFCA), o verdadeiro doce deve ser produzido com um terço de açúcar, um terço de amêndoas e um terço de frutas cristalizadas, cuja porcentagem de melão deve ser de 99%. A procedência dos ingredientes também tem de ser garantida: as amêndoas são originárias da Bacia do Mediterrâneo, o melão da Provence e o açúcar vem, normalmente, da África do Norte. O peso do produto final deve ficar entre 10 e 14 gramas, e não são admitidos conservantes nem corantes. “Por fim, o melão precisa ser descascado à mão antes da cristalização. Para completar a receita, cada fabricante pode acrescentar 1% de outro ingrediente, dando um sabor diferenciado ao seu produto”, conforme explica Farine.

É neste detalhe – que pode vir da casca ou da flor da laranja, do mel, da baunilha, do limão, da lavanda ou do abricot – que repousa o segredo e a sutileza dos sabores do calisson. Com o intuito de preservar a receita e garantir a qualidade do doce de Aix-en-Provence, os produtores locais entraram com um pedido de registro no Ministério da Agricultura francês para obter uma identificação geográfica protegida (IGP –Identification Géographique Protégée). O selo certifica as características do produto e a região de fabricação.

De acordo com a receita deles, as amêndoas e o melão cristalizado precisam ser esmagados até se obter uma massa fina e homogênea, que é, em seguida, transferida para um recipiente aquecido a vapor, no qual ela cozinha durante uma hora junto com o açúcar. A massa produzida deve repousar por três dias antes de ser colocada em uma fôrma sustentada por uma fina folha de hóstia de féculas de milho, para depois ser coberta de glacê real, fabricado a partir de açúcar e clara de ovo. Depois disso, o doce é levado ao forno à temperatura de 160° durante 15 minutos. Para finalizar, o calisson ainda molhado é colocado individualmente em um recipiente plástico vedado de maneira hermética. Nessas condições, ele pode ser consumido dentro de um período de oito meses.

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