MATÉRIA DE CAPA
QUE VENHAM
OS TURISTAS
Ligia Molina
Francisco de Salles Lopes, da Embratur
Carlos Henrique Abatayguara, da Jet Set
Janyck Daudet, do Club Med
Edição 280 - Janeiro 2007
    
      




 
   
 
   
 
     
 
     
 
          
 Nº 283
Julho/Agosto 2007
 
 
 
  Tour de France  

Caos nos principais aeroportos do país, crise na Varig, violência contra turistas alemães, ingleses e croatas no Rio de Janeiro, lançamento do filme norte-americano Turistas, o qual retrata a imagem de um Brasil que jamais gostaríamos de imaginar. A turbulência que o setor vem enfrentando desde o início de 2006, entretanto, parece não abalar o otimismo dos responsáveis pela divulgação do país em terras estrangeiras. Confiantes, Ministério do Turismo e Embratur comemoram os resultados do turismo internacional e tomam como base os dados de uma pesquisa recente com visitantes estrangeiros – a qual aponta a violência no Brasil como o quinto item no ranking de pontos negativos do país – para justificar que o fator de maior destaque na mídia não influencia a escolha de um destino.

“Os acontecimentos recentes não são prioridade na lista de reclamações dos turistas estrangeiros, que consideram a falta de sinalização nas cidades e nas estradas, o lixo urbano e a estrutura telefônica e de internet ineficientes as questões mais incômodas”, afirma José Francisco de Salles Lopes, diretor de estudos e pesquisas da Embratur. Segundo o executivo, o número de visitantes que desembarcaram no Brasil, de janeiro a setembro de 2006, demonstra o quanto o setor está aquecido – foram 6,5 milhões nesse período do ano passado, ante os cerca de 5,6 milhões em 2005.

Em arrecadação, os dados divulgados pela Embratur revelam a entrada, em 2002, de US$ 1,998 bilhão no país, enquanto de janeiro a novembro de 2006 foram US$ 3,919 bilhões. Apoiado nessas informações, o ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia, reforça os planos para os próximos anos, acreditando que até 2010 os resultados vão “no mínimo, dobrar”. Tudo isso, segundo ele, graças ao maior investimento no setor pelo governo federal, estados e municípios e à ampliação das parcerias público-privadas (PPP´s), inclusive com empresas de aviação, fazendo que o número de vôos charters para o Brasil aumente.

“Nós esperamos, em 2010, cerca de US$ 10 bilhões em divisas trazidas pelos visitantes estrangeiros. Para isso, vamos investir US$ 120 milhões na promoção do Brasil no exterior em 2007”, declara Mares Guia. Para obter esses resultados, o governo terá de injetar cerca de US$ 150 milhões em 2008 e US$ 200 milhões em 2009 somente na divulgação internacional do país. Um número ousado se levarmos em conta que, atualmente, os investimentos médios nessa área variam de US$ 10 milhões a 15 milhões/ano. “Em 2006, já utilizamos US$ 65 milhões de um orçamento total de R$ 1,5 bilhão”, acrescenta o ministro.

Na tentativa de driblar os problemas do setor, a Embratur,
desde a criação do Plano Nacional do Turismo em 2003 –
o qual dimensionou a realidade do turismo brasileiro e traçou
metas para alcançar o desenvolvimento e a evolução do
segmento –, tem apresentado uma atuação mais agressiva,
com foco na divulgação do Brasil em terras estrangeiras.
Ninguém pode negar que as ações colocadas em prática nos
últimos anos tenham sido significativas no sentido de atrair
visitantes de outros países.

A presença freqüente do Brasil em feiras internacionais do
setor – acirrando a competição com outros locais voltados
para a mesma área de turismo, como a África do Sul – ; a
criação de escritórios em cidades como Portugal, Nova York,
Paris, Londres, Milão, Frankfurt, Madri e com previsão para
o Japão; a implantação do Plano Aquarela – responsável
pelas pesquisas e pela definição das ações de marketing no
exterior –, e o fortalecimento da Marca Brasil têm contribuído
para destacar o nome do país internacionalmente. “Com isso,
pudemos detectar que 99% dos turistas que desembarcam
por aqui recomendam o destino a outras pessoas e 86%
demonstram a intenção de voltar a realizar outro tipo de viagem
pelo país”, diz Márcio Nascimento, diretor de marketing da Embratur.

Nascimento considera que o marketing da Embratur não tem feito mais por um simples motivo: a falta de verba, a qual impossibilitou o Brasil de estar presente, em 2006, em países potenciais na emissão de turistas, como a China e o Japão. De acordo com o diretor, essa situação criará obstáculos para o país atingir a marca dos 9 milhões de visitantes estrangeiros estipulada para 2007. “Pretendemos, neste ano, investir na divulgação do Brasil principalmente nos locais aonde não pudemos atuar”, afirma.

Roberto Dultra, presidente da Brazilian Incoming Tour Operators (BITO), entidade responsável pelo turismo receptivo, também acredita que a falta de verba tenha sido uma das dificuldades para se alcançar melhores resultados na divulgação do Brasil no exterior, impedindo que o país explore totalmente suas potencialidades. “Falta dinheiro para investir no mercado institucional brasileiro lá fora, o que acaba atraindo um turismo mais barato.

Somos fortes concorrentes nos preços, mas estamos deixando de lado o turismo de luxo, que apresenta um potencial enorme no Brasil em todos os sentidos”. Além das belezas naturais brasileiras, Dultra cita a infra-estrutura das acomodações existentes, dos campos de golfe dos passeios de barco como diferencial para atrair o turista de maior poder aquisitivo, bastando, para isso, que o Ministério do Turismo enxergue e explore as oportunidades desse público.

Para facilitar a entrada de novos visitantes no país, o presidente da BITO também considera necessário que o governo federal se livre de alguns entraves, como a emissão do visto – “altamente burocrática” –, e invista em segurança, principalmente no Rio de Janeiro, alvo de vários acontecimentos desagradáveis nos últimos meses. “O Rio é, sem dúvida, a vitrine do Brasil no exterior. O que acontece nesse estado automaticamente se repercute lá fora”, declara.

Imagem arranhada – As crises da Varig e dos controladores aéreos são, para ele, fatores prejudiciais para a recepção de turistas estrangeiros, além de arranharem a imagem do país lá fora. “Enfrentamos dificuldades enormes no receptivo, principalmente depois da crise da Varig que afetou a quantidade de vôos São Paulo/Rio de Janeiro/Europa. Esse fator somado à burocracia na emissão dos vistos nos faz perder cerca de 1 milhão de turistas/ano”, avalia Dultra, ao exemplificar que a Argentina recebe o triplo de turistas que o Brasil por expedir os vistos com mais agilidade.

As agências de viagem, que atuam no turismo receptivo nas cidades do Rio e de São Paulo, não negam as dificuldades enfrentadas em 2006, principalmente em relação à crise da Varig. “A companhia aérea oferecia apoio para a divulgação do país no exterior, pois os agentes de viagem pagavam meia passagem para realizar esse tipo de promoção”, afirma Laurent Marchand, responsável pelo departamento interno da Top Tours Turismo. Segundo ele, nenhuma outra empresa, atualmente, oferece esse tipo de benefício, o que impossibilita a continuidade do trabalho.

Localizada no Rio de Janeiro, a Top Tours encontra outro obstáculo na recepção de seus turistas – a violência urbana. Laurent explica que não adianta o Ministério do Turismo e a Embratur ignorarem o fato, pois ele realmente é prejudicial à imagem do Brasil no exterior. “Enquanto não há uma solução definitiva para esse impasse, devemos contar pelo menos com a ajuda da polícia na escolta de grupos estrangeiros do aeroporto até o hotel e vice-versa”, completa.

Carlos Henrique Abatayguara, diretor da Jet Set Turismo,
empresa com sede em São Paulo, também acredita que a
imagem do país ainda precisa ser melhorada. “Realmente
temos de resolver com urgência assuntos como segurança,
turismo predatório e sexual e outros temas negativos que
aparecem o tempo todo na mídia. Se estivermos atentos a
esses detalhes, poderemos analisar oportunidades e
tendências para o setor”, considera, ao explicar que
São Paulo, por exemplo, tem capacidade de receber
diferentes turistas se souber acentuar com qualidade sua
vocação cultural, gastronômica e até esportiva.

O diretor da Jet Set afirma que o Brasil ainda está em busca
do caminho para adequar o seu potencial turístico ao
comércio internacional. “Percebemos que temos uma imagem
de lugar exótico, mas que continua vinculada ao país do
samba, futebol e Carnaval. Aos poucos, podemos ser
descobertos como um destino complexo que atende
praticamente a todos os públicos”, conclui.

Roteiros alternativos – Se por um lado o Brasil enfrenta
uma série de dificuldades para atingir um lugar de destaque
entre os principais roteiros turísticos mundiais, por outro
recebe a credibilidade de quem reconhece que o país tem todos os atributos necessários para se sobressair em turismo internacional. Consultor na área, o francês Bernard Martinez desembarcou no Brasil em 1976, trazendo na bagagem o conhecimento do país líder na recepção de visitantes, a França. Desde então, tem se especializado e acompanhado de perto o desenvolvimento do setor.

“O Brasil tem muito potencial para atrair ainda mais o turismo europeu, que passou por uma drástica mudança após a passagem do tsunami, deixando a Ásia de fora da preferência desse público”. Quanto à África do Sul, Martinez afirma que o país também está perdendo espaço no turismo por sofrer com a falta d´água. O consultor acredita que o governo brasileiro deve explorar mais as imagens dos locais de natureza exuberante, os quais não constam da lista dos considerados violentos, como o Rio de Janeiro. “A divulgação do turismo nacional precisa abranger as belezas naturais de Estados como Pernambuco, Maranhão e Alagoas, lugares que, no momento, não sofrem com a repercussão negativa na mídia”.

Em relação aos investimentos estrangeiros no setor nos últimos anos, o Brasil é visto como uma terra de muitas oportunidades. Em 2006 e início de 2007, o grupo francês Accor, por exemplo, lançou dois novos empreendimentos no país – o Sofitel Florianópolis (SC) e o Sofitel Jequitimar Guarujá (SP) – voltados para o turismo de luxo. Em recente visita ao país, o diretor-geral mundial da empresa, Gilles Pélisson, destacou o Brasil como “decisivo para a consolidação da Accor na América Latina”, justificando os planos de inaugurar 51 hotéis em território nacional, entre 2006 e 2008. “Serão 19 unidades da marca Ibis e Formule 1, em 2007, e 22, em 2008”, antecipa.

O turismo de negócios permanece no alvo de investimentos do grupo, o qual promete a instalação de duas unidades do Formule 1 no centro de São Paulo e uma no Rio de Janeiro, sem dispensar as oportunidades de cidades como Campos e Macaé (RJ) e Macapá (AP). “Entre os grandes países emergentes do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o Brasil tem lugar de destaque na nossa estratégia, sendo um grande exemplo para a América Latina, pois responde por 15% a 20% dos resultados globais da empresa”, explica Pélisson.

Segundo dados do Ministério do Turismo, além do grupo Accor, o Brasil deverá receber, até 2008, 117 novos empreendimentos hoteleiros, o que representa R$ 3,6 bilhões em recursos, sem contar as intenções dos pequenos e médios investidores. Nesse cenário, o Nordeste brasileiro concentra a maior parte do interesse desses investidores (46%) e também as maiores quantias – 60% do total. A Região Sudeste vem em segundo lugar na escala de investimentos em turismo.

À procura de experiências – “Esse interesse de grupos
hoteleiros ocorre graças à mudança de comportamento do
turista estrangeiro, o qual nos últimos anos tem se interessado
por roteiros que oferecem a possibilidade de interagir com a
cultura local. O Brasil tem essa capacidade de sobra”, informa
Sergio Foguel, presidente da Fundação Mundial de Turismo
para a Paz e Desenvolvimento Sustentável, entidade
responsável pela realização do Fórum Mundial do Turismo
para a Paz e Desenvolvimento Sustentável há três anos no
Brasil. Foguel acredita que, além dos atributos naturais, o país
tem desenvolvido uma nova consciência para atrair a atenção
do turista estrangeiro – a valorização de sua cultura local.

“As empresas que investem em turismo no país já entendem
que é por esse caminho que devemos seguir”. A gastronomia,
o artesanato, a cordialidade do povo e a história local
contribuem para o crescimento do setor”. São Luís do
Maranhão (MA), Penedo (RJ) e Diamantina (MG) são alguns
dos lugares brasileiros citados por ele que têm mobilizado
suas comunidades em prol do turismo sustentável.

Janyck Daudet, presidente do Club Med para a América
Latina, concorda com Foguel ao enfatizar que, principalmente
na Europa, o turismo que permite ao visitante vivenciar o destino começa a ganhar força. “É comum encontrarmos o executivo de uma empresa de bermuda, tênis e mochila nas costas circulando pelo interior da Bahia a caminho da Chapada Diamantina. As pessoas procuram experiências, e a cultura brasileira é repleta de opções”, acrescenta.

Entre os diferenciais que contribuem para que o turista estrangeiro escolha o Brasil, Daudet destaca a hospitalidade do povo brasileiro. “Existe um clima todo especial aqui. As pessoas sentem-se como se estivessem em casa.Isso é raríssimo. Não é só luxo ou belezas naturais. É, além de tudo, o carinho e a forma toda especial de receber que poucos países têm”.

 
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OS DESAFIOS QUE O GOVERNO BRASILEIRO
TERÁ DE SUPERAR – COMO PROBLEMAS DE
INFRA-ESTRUTURA, FALTA DE SEGURANÇA E
CRISE NO SETOR AÉREO – PARA INSERIR O
BRASIL NO RANKING DOS DESTINOS TURÍSTICOS MAIS VISITADOS DO MUNDO
 
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