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Nascido na região francesa da Alsácia, o fotógrafo Patrick Bogner é um apaixonado pelo Nordeste brasileiro e pela multiculturalidade do Brasil. Em sua mostra Interiores - Ícones do cotidiano, que ficou em cartaz até 17 de fevereiro de 2008 no Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro (Rua Marquês de São Vicente, 476. Tel. : 21 3284-7400), Bogner retrata os lares do sertão em imagens de extrema sensibilidade cromática, quase cinematográficas, que o IMS resgatou e agora fazem parte do seu acervo permamente.
Na opinião do fotógrafo, os grandes escritores sempre influenciaram de maneira pertinente a vida dos artistas em todas as épocas. Os livros, fontes inesgotáveis de viagens interiores, são o fundamento do trabalho de Bogner, que se diz profundamente tocado pela literatura de Gabriel García Marques e pelos brasileiros João Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, entre outros, para compor seu trabalho iconográfico.
Nos anos 1990, o fotógrafo veio para o Brasil pela primeira vez e decidiu viver no sertão nordestino para entender a profunda relação do sertanejo com a religião. Algo que o surpreendeu foi a devoção ao milagreiro Padre Cícero e também a sensibilidade religiosa do brasileiro que vive longe dos grandes centros urbanos. Uma das frases mais marcantes que ele diz ter ouvido durante suas andanças foi: "Tudo o que acontece no sertão foi Deus quem quis.".
Foi essa crença absoluta num Deus onipotente que chamou a atenção desse ateu convicto, que diz ter encontrado muito mais perguntas do que respostas nessas viagens ao Nordeste brasileiro. Além da fé cega do sertanejo, Bogner deparou-se com o que ele chama de "o homem nu", ou seja, o ser humano verdadeiro, que procura sobreviver sem nenhum aparato superficial e sem máscara.
Em sua recente exposição realizada em terras brasileiras, esse artista francês mostrou muito mais do que a decoração das casas dos sertanejos ou o cotidiano simples de suas vidas. Na verdade, as imagens revelam o que ele denomina de "uma espécie de santuário, um espaço de recolhimento" e ainda uma homenagem aos brasileiros que consagram sua existência a recriar a própria sobrevivência numa realidade árida e inóspita. Os rebocos aparentes, as fotografias antigas dos entes queridos que enfeitam paredes inteiras, os potes cobertos com toalhas coloridas, a luz que reflete das panelas extremamente brilhantes - todo o simbolismo da cultura brasileira está presente em cada cômodo dessas casas do sertão.
As fotografias de Bogner apresentam uma luminosidade intensa nas cores e nas formas, dando a sensação de que os objetos foram pintados ou desenhados, como se fizessem parte de um quadro. O resultado artístico das imagens é obtido por meio de uma técnica artesanal de revelação desenvolvida com exclusividade, desde 1899, pela família Fresson, que vive nos arredores de Paris. A técnica (carbon process) consiste na utilização de pigmentos de carbono como substância formadora da imagem.
O processo Fresson, inventado no final do século 19 por Theodor-Henry Fresson, é um procedimento à base de pigmentos de carvão. "Suas qualidades cromáticas e de longa permanência são os principais atrativos desse método tradicional praticado por uma mesma família ao longo de mais de um século", diz Sergio Burgi, especialista em fotografia do IMS, explicando que a qualidade e a beleza no universo da fotografia não são necessariamente dependentes de produtos de alta tecnologia.
Caminho inverso - Para estabelecer uma relação de confiança com os moradores das cidades visitadas no sertão nordestino, Bogner alugou uma casa em Juazeiro do Norte e fez o trabalho inverso. O fotógrafo conta que ficava observando as pessoas nas ruas e as convidava para posar para ele com os mesmos trejeitos de como foram encontradas. "Era um desfile de figuras que passavam pelo meu atelier improvisado". Desse trabalho, surgiu a exposição Romeiros e Anjos - um retrato em branco-e-preto da gente humilde do sertão, também adquirido pelo Instituto Moreira Salles.
Para Antonio Fernando De Franceschi, diretor do IMS, a parceria com Bogner deu-se de forma natural. "Nós, de um lado, reconhecendo a qualidade do trabalho que ele vem realizando no Brasil, e ele com o desejo de mostrar sua produção ao nosso público", afirma. Temos trabalhos de vários fotógrafos de nacionalidade ou ascendência francesa em nosso acervo, entre os quais eu poderia citar Marc Ferrez, Hercule Florence, Claude Lévi-Strauss, Henry Ballot e Marcel Gautherot. "A missão do IMS é prestar um serviço cultural de alta qualidade por meio de programas de médio e longo prazos sempre voltados para os temas relacionados com a arte e o povo brasileiro. Por isso, procuramos incorporar a obra de fotógrafos de quaisquer nacionalidades", completa.
As fotografias de Bogner mostram muito sobre o sertanejo e o seu estilo de vida. Na verdade, as imagens revelam uma realidade entre a devoção pela vida, a crença inabalável em Deus e o medo constante da morte. Esse sertão, tanto regional quanto pessoal, é o mistério que ele conseguiu captar em suas fotografias ricamente cromáticas e impregnadas de simbologia.
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