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| No. 293 agosto/setembro 2009 |
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NEGÓCIOS |
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UM UNIVERSO DE OPORTUNIDADES Impulsionado por um mercado interno sustentado por 190 milhões de pessoas e que corresponde a 64,8% do PIB nacional, segundo o IBGE, Brasil demonstra sinais de recuperação econômica e renova expectativas de grupos estrangeiros de diferentes setores que atuam no país
FRANÇOISE TERZIAN E LEANDRO RODRIGUEZ
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Esqueça a ideia de um Brasil jovem, eterno "país do futuro". Para os economistas, o futuro chegou, acompanhado de duas sensíveis mudanças: estamos envelhecendo e enriquecendo. Até 1991, a expectativa de vida do brasileiro era de 67 anos. Hoje, ela atinge 72,7 anos. A renda per capita (ganho anual por habitante), por sua vez, avançou 59,41%, entre 1995 e 2008, segundo estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). A porcentagem não é tão satisfatória quanto à de outros emergentes, como Índia e China, cujo crescimento combinado, no mesmo período, foi de 123,31%. No entanto, a evolução da economia brasileira é visível. O risco-país, considerado um termômetro da confiança internacional, decai - apesar do efeito gangorra -, o que nos torna atraentes aos investidores estrangeiros.
Uma população mais madura e rica oferece melhores oportunidades de negócios. É certo que a crise financeira global estagnou o crescimento continuado celebrado pela equipe econômica, mas sem quase prejudicar a projeção internacional do Brasil. Com a Europa em recessão e os Estados Unidos em plena recuperação - alguns diriam reinvenção -, despontamos como um dos países mais promissores do globo e um dos primeiros a dar sinais sólidos de recuperação. Indianos e chineses ascenderam como fortes competidores mundiais, mas aqui as perspectivas parecem mais confiáveis. Todas convergem para o potencial do mercado interno, motor do crescimento equivalente a cerca de 64,8% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com dados do IBGE, e sustentado por 190 milhões de pessoas que, na média, vivem mais e consomem mais (veja boxe abaixo).

"Temos uma baixa participação no comércio internacional em relação ao PIB e uma economia diversificada", explica Alberto Serrentino, sócio sênior da consultoria Gouvêa de Souza (GS&MD). A distribuição da população por classes de consumo se manteve estável nos últimos meses, o que indica a consolidação de mudanças ocorridas nos últimos anos. Serrentino lembra que houve desaceleração no ganho da renda e do emprego em 2009, o que reduziu o ritmo de ascensão social das camadas mais baixas, mas não a capacidade de consumo. "O aumento real do salário mínimo, a correção dos programas de transferência de renda do governo e o reajuste do funcionalismo público são os principais motivos", diz.
A maior independência em relação às nações ricas também é apontada por Louis Bazire, presidente do banco BNP Paribas Brasil, como um trunfo econômico. Segundo o executivo, o consumo interno foi relativamente bom no primeiro semestre deste ano devido, em parte, ao aumento salarial de alguns setores em 2008, que previram uma inflação maior do que a real (de 4%). Isso se refletiu no poder de compra da população. No ano passado, a renda familiar brasileira aumentou em todas as classes sociais, segundo a pesquisa Observador Brasil 2009, realizada pela financeira Cetelem, do grupo BNP Paribas, em conjunto com a empresa de pesquisas Ipsos.
O estudo ouviu 1.500 pessoas de 70 cidades para mapear os hábitos de consumo da população e revela que, nas camadas D/E, a receita familiar avançou de R$ 580 para R$ 650, um crescimento de 12%. Nas classes A/B, o aumento foi de 16,5%, passando de R$ 2.217 para R$ 2.586. Na classe C, considerada o "consumidor emergente" e que reúne a maior parcela populacional (52%), o ganho familiar mensal subiu de R$ 1.062 para R$ 1.201, na comparação entre 2007 e 2008, com incremento de 13%. Apesar dos avanços, nota-se menor propensão ao gasto, além de cautela com a crise financeira mundial.
No segmento de luxo, esse comportamento já foi percebido e avaliado. Davide Marcovitch, presidente da Moët Hennessy para a América Latina, o Caribe, a África, o Oriente Médio e Canadá, acredita que as pessoas estejam mais econômicas, mas sem descuidar da qualidade. "São produtos mais duradouros, bem acabados e com diferenciais marcantes", explica. Para Bárbara Kern, diretora de Marketing e Vendas de RR Perfumes e Cosméticos, distribuidora das marcas Lacoste e Jean Paul Gaultier, entre outras, 2009 supera as expectativas. As previsões eram de um ano difícil, mas a criatividade ajudou a enfrentar o mau tempo. A empresa decidiu destacar a qualidade de seus produtos, além de adotar ações promocionais e preços competitivos. Sem perder de vista a vaidade do brasileiro, Bárbara acredita que a crise deixou as pessoas mais indulgentes consigo mesmas, o que explicaria a procura por itens de beleza e bem-estar, como cosméticos e perfumes.
Muitos segmentos dão sinais de mudanças semelhantes. No país, assim como em todo o mundo, a crise financeira atingiu o crédito. Desconfiados, os bancos recolheram o dinheiro disponível para novos empréstimos e muitas pessoas adiaram a compra de veículos ou imóveis, por exemplo. Com isso, o consumo de artigos básicos ocupou parte do espaço deixado pelos produtos duradouros.
Os super e hipermercados foram bastante favorecidos e são eles que mais crescem no varejo. Em junho de 2009, o Índice Nacional de Vendas (INV), divulgado mensalmente pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), registrou expansão de 4,5%. "Os principais motivos são o aumento da massa salarial da população e a desaceleração da inflação dos alimentos", comenta Alberto Serrentino. O consultor explica que as maiores redes devem continuar impulsionando o setor, cujo desempenho contrasta com o dos Estados Unidos (queda de 9,2% do varejo no ano) e da zona do Euro (-3,2%).
No primeiro trimestre, as vendas de Carrefour Brasil aumentaram 11,7%. "A Páscoa foi um estímulo, seguida do Dia das Mães, que já contou com a redução do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) para a linha branca", afirma Renata Moura, diretora de Assuntos Corporativos. Diante de notícias da crise financeira, muitas pessoas reviram seus gastos. A saída foi readequar a oferta de produtos de higiene, beleza e alimentação e acionar a área de inteligência, que investigou hábitos de consumo e orientou o departamento de planos de negócios nas parcerias com a indústria e nos pedidos de inovações nos produtos. "Se não temos lazer externo, passamos a cuidar da beleza em casa", observa.
Ao perceber esse cenário, a rede francesa ampliou o sortimento em suas gôndolas. Para este ano, Renata prevê forte expansão, com abertura de lojas e o fortalecimento dos produtos de marca própria, que já totalizam 14 mil itens. A crise, de fato, parece não ter existido. "O investimento anual de R$ 1 bilhão está mantido, assim como a expectativa de abertura de 70 lojas multiformato", afirma.
Novos produtos - No Pão de Açúcar, o otimismo também prevalece. "Temos um consumidor interno forte e fornecedores que suprem o país das mais diversas necessidades. Prova disso é que apenas 5% dos produtos que vendemos são importados", conta Hugo Bethlem, vice-presidente da Cadeia de Suprimentos e Tecnologia da Informação. Ele acredita que os fundamentos da economia estão preservados, e que as empresas alimentariam o ciclo negativo se deixassem de produzir por medo. A mensagem a ser dada é: não pare de consumir, mas deixe de comprar desmedidamente. Com seis milhões de cartões próprios em mãos de clientes, o grupo decidiu estimular o crédito.
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PONTO DE EQUILÍBRIO
O crédito - ou sua escassez - será determinante para o futuro da economia brasileira. Com juros baixos e inflação controlada, a população planeja investimentos a longo prazo. A dificuldade passa por encontrar equilíbri ao mesmo tempo em que renovam oportunidades e aquecem o mercado, os empréstimos bancários aumentam os riscos de inadimplência. O Brasil tem um dos menores índices de disponibilidade de crédito em relação ao PIB. "A média mundial gira em torno de 80%, 85%, enquanto aqui não passamos de 43%", observa Adalberto Savioli, presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi). Além disso, pedir dinheiro emprestado custa caro porque, além do spread bancário (diferença entre os juros pagos pelos bancos na captação de recursos e as taxas cobradas dos clientes), as instituições têm medo da inadimplência. "O brasileiro ganha mais e se endivida mais. Há maior oferta de crédito e também maior alongamento do prazo da dívida", explica Savioli. Uma dívida de quatro anos hoje teria um atraso de, no máximo, 2,5 anos em 2006. Ainda assim, o montante de operações de crédito atingiu R$ 1,2 trilhão em maio, equivalente ao aumento de 20,1% em 12 meses, segundo o Banco Central (BC). Previsões da Acrefi apontam para uma elevação dos empréstimos entre entre 12% e 15% somente neste ano. | |
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A expectativa era de baixa nas vendas de eletrodomésticos e eletrônicos, além de outros produtos não alimentícios. Para surpresa, o ano começou bem - a redução do IPI também favoreceu os bons resultados. Em janeiro, as vendas cresceram dois dígitos em relação ao mesmo período de 2008. "Isso nos possibilitou concretizar a compra do Ponto Frio", conta Bethlem. Com a operação, a receita do grupo com não alimentos subiu de 28% para 36%. Em apenas três anos, foi possível conquistar espaços de concorrentes. Segundo o executivo, a rede é a maior vendedora de informática do país na atualidade. O desafio é crescer agressivamente até dezembro e ganhar participação de mercado, embora o executivo não revele detalhes dessa estratégia.
No segundo trimestre deste ano, o Grupo Pão de Açúcar obteve lucro líquido de R$ 131,7 milhões, valor que representa uma expansão de 155% em relação ao mesmo período de 2008, quando o ganho somou R$ 51,7 milhões. O resultado foi possível pela combinação entre crescimento de vendas e controle de custos e despesas, além de perdas menores em operações financeiras.
Na indústria, os grandes grupos de alimentos e bebidas exploram oportunidades com o desenvolvimento de novos produtos pensados para consumidores antes excluídos dos planos de marketing e vendas. Em julho, a Unilever relançou a linha original de bebidas à base de soja da marca AdeS, com maior teor de cálcio, zinco e vitaminas, como a D. | |
O reforço nutricional de produtos alimentícios é uma resposta aos desejos de grande parte da população, que aproveita o poder de compra para alimentar melhor a família. Lançamentos como esse, cujo investimento somou R$ 20 milhões em pesquisa, formulação, desenvolvimento e marketing, visam pessoas consumindo menos cálcio (99,6% dos brasileiros) e vitamina D (99,7%) do que o recomendado. Além de se tratar de um problema de saúde pública, deficiências como essas são encaradas como oportunidades de negócios.
"O produto lidera em bebidas à base de soja, com 63,4% de valor de marca no segmento em 2008, segundo dados da consultoria Nielsen, e trabalhamos para manter esta liderança", afirma Daniela Cachich, gerente de Marketing de AdeS. As bebidas à base de soja atingiram crescimento acima de 20% nos últimos anos. O aquecimento do segmento, tanto no Brasil como em outros países, reflete o interesse renovado nos supermercados por itens associados ao consumo saudável. Segundo pesquisa realizada pela agência McCann Erickson, 38% de casais da classe C de cinco capitais consideram o "fazer bem" como fator primordial da escolha de alimentos. O estudo revela ainda que mais de dois terços dos entrevistados procuram informações sobre nutrição, enquanto 76% fazem em casa a principal refeição do dia (principalmente o jantar).
"Viver no limite" - Empresas e analistas, no entanto, estão atentos a certas limitações. No primeiro semestre surgiram os sinais de dificuldades, para muitas famílias, de adquirir produtos de maior valor agregado. O chamado "viver no limite" tem se tornado uma constante, o que significa risco para a economia e desafio para as empresas. "Elas precisam entender melhor essa dinâmica e desenvolver estratégias de negócios e comunicação que levem o consumidor a buscar, para além do crediário e com segurança, seus sonhos e desejos de consumo, não apenas a satisfação imediata", adverte João Roberto Vieira da Costa, sócio-diretor de Nova S/B e idealizador de Estudo 100, que apontou hábitos de consumo da classe C.
Os mercados de nicho podem ser uma alternativa para diversificar, como o da empresa belga Puratos, dona da marca francesa PatisFrance, de produtos voltados para a alta confeitaria. Os alvos, neste caso, são confeitarias, hotéis, restaurantes, padarias e profissionais do setor. A empresa introduziu chocolates Belcolade no país, considerados de alta qualidade, com forte presença em São Paulo e Rio de Janeiro, além de contar com rede de mais de 50 distribuidores para várias capitais brasileiras. Também lançou produtos da unidade de negócios PatisFrance, tradicional empresa francesa. "A marca traz vanguarda e inovação a chefs confeiteiros, que terão à disposição ingredientes de alta qualidade para criar suas receitas", afirma Caio Gouvea, diretor-geral da Puratos. De quebra, eles poderão ser atendidos por um único fornecedor para diversos itens. O universo é imenso. São mais de 60 mil padarias em todo o país, com cerca de 40 milhões de clientes diários. Gouvea conta que o Sudeste será o principal alvo da empresa, pela variedade de restaurantes e hotéis de referência.
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CONSUMIDORES COM CAUTELA
A crise financeira mundial provocou uma forte retração do consumo em diversas regiões devido à maior cautela das pessoas com os gastos diários e as compras e investimentos de longo prazo. Embora prevaleça a ideia de que o pior já passou, o estado de ânimo dos consumidores continua incerto, o que influencia os resultados e os planos de negócio das empresas. O desafio para os gestores, neste caso, é tentar compreender a atitude da população. Uma pesquisa recente da consultoria Nielsen apontou quais são os países menos pessimistas em relação às finanças pessoais nos últimos 12 meses. A Indonésia encabeça a lista, seguida pela Noruega e a Índia. Colômbia e Emirados Árabes Unidos aparecem na sequência, à frente do Brasil, que se posiciona em sexto entre as nações mais otimistas. Essa reação positiva à crise foi revelada também por recente pesquisa em 17 países e com 16 mil pessoas (realizada no Brasil pelo Ibope), em que 12% dos entrevistados disseram acreditar que a situação vai melhorar. Desses, apenas os indianos (39%) são mais otimistas do que os brasileiros (34%). Ainda assim, 49% das pessoas ouvidas acham que a crise vai piorar, sendo os britânicos (78%) e os japoneses (70%) os mais pessimistas diante do panorama econômico. |
A mesma região se destaca pelas impressionantes vendas de veículos nos últimos meses. A decisão do governo federal de ajudar o setor automobilístico com a redução do IPI - principalmente para modelos populares - explica o sucesso de vendas, mas não foi o único motivo para o Brasil ter vendido cerca de 300 mil unidades somente em junho. Trata-se de recorde histórico, equivalente à alta de 21,5% em relação a maio de 2009 e de 17,2% frente a junho de 2008. Os resultados, no entanto, não são isolados, mas resultado de uma tendência em meio à crise. De janeiro a junho deste ano, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), 1,4 milhão de veículos deixaram as concessionárias, com aumento de 3% em relação a 2008. "Como junho seria o mês de término da redução do IPI, todos os clientes interessados em adquirir um carro resolveram aproveitar a oportunidade", afirma Jean-Michel Jalinier, presidente de Renault do Brasil. A montadora acompanhou o boom, com a venda de 11.437 unidades em julho, atrás apenas de outras quatro concorrentes. Por resultados como esse, o Brasil se posiciona como o quinto comprador mundial da montadora. Alguns países, em contrapartida, amargam quedas nas vendas de até 50%, como Rússia e Romênia. Para Jalinier, o mercado nacional tem ótimo desempenho, graças principalmente ao alívio do IPI. No entanto, depois de outubro, a expectativa é de que ocorra uma recuperação progressiva do imposto, chegando, em 2010, aos mesmos patamares de 2008. O próximo ano, prevê o executivo, não será fácil.
"Nossos colaboradores estão engajados e motivados para melhorar a performance da empresa", revela. Porém, só a boa vontade pode não ser suficiente. A crise levou a companhia a realizar melhorias e progressos no interior da fábrica e em várias fases do processo produtivo. Na atualidade, a Renault quer ampliar sua participação setorial, de 4,2% em julho. A estratégia é investir principalmente nos novos modelos Symbol, sedã importado da Argentina e lançado em março no Brasil, e Master, furgão fabricado em São José dos Pinhais (PR) desde julho. Embora muitos carros circulem pelas ruas, Jalinier diz que há um potencial imenso. Uma comparaçã em veículos por mil habitantes, o Brasil tem quatro vezes menos carros que a Europa Ocidental. Ainda há muito mercado interno a explorar.
Só para se ter ideia do potencial brasileiro no setor automotivo, de acordo com recente levantamento da consultoria Jato Dynamics, dos 19 principais mercados internos de automóveis e comerciais leves em todo o mundo, somente cinco fecharam o primeiro semestre de 2009 com taxas positivas. A China liderou as vendas com 4.309.314 unidades emplacadas entre janeiro e junho de 2009, seguida da Alemanha, com 2.144.979 carros e do Brasil, com 1.393.893 automóveis comercializados. |
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