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No. 293 agosto/setembro 2009

CULTURA

PALCO DE GIGANTES

Conhecido pelos espetáculos lúdicos e por seus marionetes de mais de cinco metros de altura, o Royal de Luxe se consagra como um dos principais grupos de teatro de rua da França, atraindo multidões pelas cidades por onde passa


ELÓI SILVEIRA, especial da França


A expectativa pela chegada da companhia era tanta que milhares de pessoas lotaram a Praça Viarme, uma das principais de Nantes, ainda na quinta-feira, véspera do início do espetáculo. Ninguém reclamou ou se arrependeu da espera. O desembarque de um dos personagens principais, uma carismática marionete gigante de 5,5 metros de altura e quase uma tonelada de peso, deixou o público boquiaberto. Puxada por um guindaste, ela se acomodou no chão e, diante dos olhos arregalados dos visitantes, "dormiu" tranquila, antes de começar sua aventura de três dias pelas ruas da cidade. Foi desta forma que o Royal de Luxe abriu a Bienal Estuaire 2009, realizada no mês de junho.

Literalmente com um show de proporções gigantescas e técnicas inovadoras, o mais famoso grupo de teatro de rua da França retribuiu com criatividade o carinho da população local, que o adotou desde 1989, quando a trupe trocou as instalações precárias de Saint-Jean-du-Gard, em Languedoc-Roussillon, para se estabelecer em um centro com estrutura adequada às suas necessidades e pretensões. E, para não decepcionar, o diretor do Royal de Luxe, Jean-Luc Courcoult, se preparou como nunca. Foram mais de seis meses de trabalho quase ininterruptos, com 50 pessoas envolvidas na fabricação dos bonecos e na adaptação à aparelhagem que conduziria seus passos. Ao mesmo tempo, a preocupação com a história também foi minuciosa e não deixou de lado o caráter lúdico - uma das marcas registradas do grupo.

No espetáculo, A Gigante do Titanic e o Homem do Escafandro, Courcoult trouxe para perto de sua já famosa Pequena Gigante um tio distante, que resolveu partir à procura da sobrinha após encontrar no fundo do mar, nos escombros do Titanic, cartas de sua mãe que nunca haviam chegado ao destino final. A apresentação começou com a marionete acordando ainda na Praça Viarme, na sexta-feira, tomando banho e seguindo seu caminho pelo centro de Nantes. No final da tarde, no estuário do Loire, entrou em cena a grande operação do espetáculo. Auxiliado por guindastes posicionados em navios, saiu das águas do rio o Homem do Escafandro, com seus 9,5 metros e 2,5 toneladas. Somado todo o maquinário, a estrutura alcançava 15 metros e nada menos que 25 toneladas. Números proporcionais ao espanto e à comoção do público.

Na sequência do final de semana, a Pequena navegou em um barco de 25 metros e 40 toneladas e, finalmente, se encontrou com o tio no domingo, no momento mais poético e aguardado da aventura. No encerramento, a dupla despediu-se do público e deixou a cidade em um navio, com destino à terra natal.

SHOW DE SUPERLATIVOS

Fundado em 1979 e famoso pela criatividade de suas apresentações, o Royal de Luxe se distancia cada vez mais de sua origem mambembe. Confira abaixo os detalhes escondidos por trás dos espetáculos.

- 50 pessoas Envolvidas na fabricação de cada marionete

- 6 meses Tempo aproximado para
a preparação de um espetáculo

- 130 pessoas Participam,
em média, de uma apresentação

- 1 milhão de euros Valor aproximado para organização de um espetáculo

- 800 quilos É o peso da Pequena feita em madeira e aço

- 22 países Visitados pelo Royal de Luxe desde a sua fundação

- 9,5 metros
É a altura do Homem do escafandro, personagem utilizado em algumas apresentações

Tão grande como as próprias marionetes foi o esforço para que tudo saísse de forma perfeita. Além da mão-de-obra empregada na construção, cada gigante era conduzido por outras 31 pessoas, sendo que grupos de 12 se revezavam em saltos e puxões de cordas apenas para movimentar uma de suas pernas. No total, 130 pessoas participaram da apresentação que consumiu mais de um milhão de euros, ultrapassando em muito os 750 mil euros investidos na peça Peplum, de 1995.

Com vários patrocinadores, entre eles a Prefeitura de Nantes, a companhia mantém em dia sua enorme estrutura e faz Courcoult se lembrar do duro início com um misto de saudosismo e orgulho. "Desde a fundação do Royal de Luxe, em 1979, a decisão foi irrevogável: nada de teatro fechado. Com isso, muitos deixaram a trupe, porque era necessário ter um pouco de dinheiro para comer. Passamos quatro anos nas ruas, mas aprendemos muito", conta. "Hoje faço isso porque gosto, com ou sem remuneração."

Títulos curiosos - Foi no passado, aliás, que a ousadia fez o grupo se estabelecer. Muito antes de as marionetes gigantes aparecerem, o Royal de Luxe fazia espetáculos de menor porte, mas que chamavam a atenção pela criatividade das histórias e por seus títulos, no mínimo, curiosos. Foi assim com A semifinal do Waterclash, um combate de cavaleiros ao som de máquinas de lavar e louças quebradas, O bidê cardíaco, O estacionamento de sapatos, Publicidade urbana, entre outros. Todos encenados na França, Itália e Alemanha entre 1980 e 1984.

Em 1987, após ganhar um prêmio em Paris, a companhia realizou sua primeira turnê mundial, com a peça Roman Phot Tournage, apresentada 240 vezes em 22 países da Europa, Oceania e América Latina. Já em 1990, A verdadeira história da França abriu o tradicional festival de Avignon e obteve reconhecimento do governo francês, sendo escolhida como representante oficial em eventos pelo continente, pela América do Sul e pelo Brasil, em 1992.

Consagrado mundialmente, o Royal de Luxe comemorou sua "independência econômica" em 1993, ao receber significativo aporte financeiro do governo da França. A retribuição veio com a criação do primeiro gigante e com o início da saga dos incríveis marionetes em histórias com duração de três dias. Com o sucesso, eles se multiplicaram ao longo dos anos, assim como as apresentações dentro e fora do país. Os espetáculos ficaram, então, cada vez maiores e mais complexos, e as turnês passaram a durar meses, semestres, sempre com adaptações para as tradições locais.

Na ida a Camarões, por exemplo, foram criados o Pequeno Gigante Negro e contos para retratar a história local. Já na passagem pela China, os Pequenos contos chineses revistos e corrigidos pelos negros arrancaram aplausos do público. Mais tarde, na volta à França, a emoção tomou conta do festival que celebrou o centenário de Jules Verne e também marcou época, com um elefante gigante e uma história contada através do tempo. Nos últimos anos, a pausa nos enormes bonecos permitiu ao grupo reviver seus primeiros momentos, como na peça A revolta dos manequins, com direito à invasão de vitrines de lojas importantes do centro de grandes cidades.

Já o retorno dos marionetes grandiosos aconteceu com uma apresentação fora da França. Em 2006, o Royal de Luxe levou ao público chileno A Pequena Gigante

e o Rinoceronte Escondido, encantando mais de dois milhões de pessoas. Após passagem pela Islândia, o grupo se concentrou enfim na produção do espetáculo de A Pequena Gigante e o Homem do Escafandro, passando em seguida a outro projeto para sua volta à Alemanha - entre os dias 1 e 4 de outubro, a trupe se apresentará no país durante evento em comemoração aos 20 anos da queda do muro de Berlim.

Mesmo que tenha encenado durante quase 15 anos com espetáculos diferenciados, o Royal de Luxe ficou mesmo conhecido graças aos bonecos gigantes. Na França, poucos são os que nunca ouviram falar sobre o grupo ou que jamais viram alguma imagem da Pequena, do Elefante do Sultão ou de outras criações emblemáticas. "Entre nosso público, temos crianças de sete anos que vêm descobrir os gigantes, mas que talvez já tenham ouvido falar deles pelos seus pais, avós ou visto uma foto ou um vídeo. É assim que o mito do Royal de Luxe se propaga fora de suas apresentações", constata Courcoult.

Em sua última aparição, em Nantes, a companhia justificou a fama e recebeu cumprimentos e elogios de todos os lados. Dos jornais locais, que mobilizaram efetivos enormes para a cobertura da Bienal Estuaire 2009, surgiu uma comparação interessante, quase um poema em agradecimento. "Quando o Royal de Luxe passa é como o Papai Noel, como uma festa de Natal, na qual pessoas que não se conhecem dividem momentos de alegria", escreveu Véronique Escolano, do portal da cidade de Nantes.

Giro pelo mundo - Na longa trajetória da trupe, diversas viagens ficaram marcadas. Da passagem pela África, Courcoult admite ter incorporado em seu teatro o "sorriso". "No país, é uma filosofia sorrir", lembra. Outro destino que tem se tornado comum é o Chile, para onde o Royal de Luxe irá novamente no início de 2010. "Desde que apresentamos o Rinoceronte Escondido e vimos aquela multidão, ficamos encantados. A Gigante virou um mito por lá. Com ela voltaremos em janeiro de 2010 para celebrar o aniversário da independência do país", completa.

E sobre um possível retorno ao Brasil, agora com as famosas marionetes, o diretor se esquiva. "Por que não? Depois de Londres, em 2006, em que apresentamos em Picadilly Circus A viagem do sultão com seu elefante, estamos prontos para tudo." Resta, então, esperar e torcer para que eles voltem a cruzar o oceano e tragam o encantamento de seus grandiosos espetáculos para as ruas brasileiras.


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