Recentemente, um jornalista me perguntou quando o crédito voltará ao normal. A questão remete a algo que vinha me incomodando há muito temp o que pode ser considerado normal após a crise financeira que nocauteou o mercado global a partir de setembro de 2008? Creio que há um consenso de que o mundo vinha crescendo de maneira anormal, pois a economia estava "anabolizada financeiramente". Este doping foi provocado pela liquidez excessiva, que gerava crédito abundante e barato, disponível tanto para quem merecia quanto para pessoas que não deveriam ter tido acesso aos recursos.
A crise que se seguiu foi igualmente anormal, pois "travou" o crédito em todo o mundo. A consequência foi uma brutal desorganização nas finanças de empresas e famílias. Dentre as inúmeras incógnitas que dificultam nosso planejamento empresarial e de vida, a única certeza é que mudarão nossos parâmetros de lucro e lucratividade e de risco. Se tudo ocorrer como previsto, aponto algumas tendências para a "nova normalidade":
- Haverá menos capital disponível - para dívida e para equity -, que será alocado de forma muito mais seletiva;
- A demanda mundial de consumidores será mais restrita porque faltará capital e os norte-americanos aprenderão a poupar;
- Teremos um mercado global para agentes mais eficientes, consistentes e adaptáveis. Com isso, a seleção natural darwiniana do capitalismo se intensificará;
- Haverá um grande rearranjo de portfólios, em que alguns agentes econômicos ascenderão, enquanto outros encolherão ou simplesmente desaparecerão. Isto vale para países, setores econômicos, empresas de qualquer porte, modelos de negócios etc.
- Se antes o mundo só crescia, e todos vendiam muito, agora isso não ocorre mais. Aumentará muito o risco do negócio e das operações. Será mais fácil perder dinheiro por conta da competição, do crédito seletivo e da demanda menor, entre outras razões.
- O capitalismo sustentável - por crença ou pragmatismo - veio para ficar.
E quanto ao Brasil? Sairemos vencedores deste processo, mas não porque a crise nos fortalecerá. Em realidade, seremos menos afetados do que outros países. Um país vencedor, no entanto, não significa que todos os setores e as empresas o serão. É hora de estar mais atentos. Faça (ou contrate alguém para fazer) um diagnóstico imparcial de seu negócio e pense "fora da caixa". Por quê? Porque o mundo mudou! O que era "normal" antes deixou de ser.