EDITORA CONTEÚDO
Tel.: 11 3898.0195
Fax: 11 3062.7319
 
VEJA NESTA EDIÇÃO

No. 293 agosto/setembro 2009
 

 

VINHOS

LA VIE
EN ROSE

Relegado durante muito tempo a uma posição secundária no universo dos vinhos, o rosé volta às mesas transformando a região da Provence, no sul da França, em centro de produção dessa versátil bebida


MARILANE BORGES

Foi em 1682, em Argenteuil (Val-d´Oise), que o termo "vinho rosé" passou a ser utilizado para definir uma bebida de coloração entre o rosa pálido e o salmão alaranjado. Sua fabricação segue os mesmos procedimentos de produção de um tinto, porém o que muda é o tempo de contato com as cascas das uvas que, nesse caso, é menor. Durante muito tempo identificado como produto de qualidade inferior, direcionado ao público feminino, ele vem ganhando cada vez mais admiradores pelo mundo, incluindo o Brasil. Embora o consumo de vinho esteja em baixa no mercado francês, o país registra um crescimento contínuo na comercialização desse tipo de bebida - em 2008, o percentual foi de 22,6%, contra 10,8% em 1990 (o aumento é consequência da queda nas vendas de tintos - de 77,8% para 60,4%).

O rosé é o vinho mais antigo elaborado pelo homem - segundo historiadores, era produzido no Egito, na Grécia e em Roma durante a Antiguidade. Atualmente, representa 9% do consumo mundial de vinho nos cinco continentes, mas é na Europa que a produção tem maior representatividade - 75% do total, tendo a França (28%), a Itália (21%) e a Espanha (18%) como principais produtores. Nenhuma região vinícola do mundo é tão especializada nesse tipo de bebida como a Provence - só para se ter ideia, este tipo de bebida representa 75% da produção local.

Dona do vinhedo mais antigo da França, constituído pelos fenícios no século VI a.C., a Provence abriga um centro de pesquisas e experimentações dedicado exclusivamente a essa bebida. O resultado são produtos de cores claras, complexidade aromática e boa estrutura. "Os rosés da região unem a elegância dos vinhos do Velho Mundo a um toque de descontração e jovialidade", afirma a consultora Jeanne Marioton. De acordo com ela, ao contrário dos tintos, a delicadeza dos rosados não permite que seu tempo de conservação seja muito longo. "Para ser consumido, a máxima deve ser: quanto mais jovem melhor. É um vinho com vida curta, cheio de frescor e perfeito para o clima do Brasil", afirma.

Diferentemente de outras localidades, a Provence oferece condições ideais para a viticultura - somente as vinhas e as oliveiras podem ser cultivadas, em decorrência do solo árido. Seu clima é ao mesmo tempo seco e quente com incidência de dias ensolarados quase o ano inteiro, a temperatura ideal que protege o vinhedo de doenças e propícia para o cultivo de uvas bem maduras. A região se orgulha, entre outras qualidades, de possuir o maior vinhedo com apelação de origem controlada (AOC) de rosés.

Além da Provence, também é possível degustar excelentes rosados com apelação de origem controlada em Côtes du Rhône, em Languedoc-Roussillon, em Bordeaux, no Vale do Loire e na Borgonha, onde a bebida é produzida a partir da Pinot Noir. Fora da França, os rosés fazem sucesso em Portugal; na Espanha, onde são quase uma religião; no Chile e na Argentina, produzidos com vários tipos de uvas, como Cabernet Sauvignon e Malbec, e na Itália (veja boxe abaixo).


A versatilidade e o frescor são algumas das características dos rosés,
produzidos na região da Provence, na França
 

Quebra de paradigmas - Para Jean-Jacques Breban, presidente do Conselho Interprofissional dos Vinhos de Provence (CIVP), o Brasil aparece em segundo lugar no ranking dos países prioritários para promoção dos rosés, seguido pela China e pela Rússia. O interesse, de acordo com ele, está diretamente associado à personalidade e à jovialidade do brasileiro. "É um vinho que representa a alegria de viver, além de ser versátil para acompanhar peixes, massas e pratos delicados." Breban acredita que, mesmo em tempos de crise, o produto não apresentará queda no consumo, principalmente em decorrência de seu preço, de sua qualidade e praticidade.

Desmistificar a imagem do rosé em terras brasileiras é uma das missões do Provence Club Brasil, associação que reúne nove vinícolas (Château Deffends, Les Vins Breban, Château des Chaberts, Domaine de Rimauresq, Cellier Saint Sidoine, Les Maîtres Vignerons de St. Tropez, Château de l´Escarelle, Château Ferry Lacombe e Château de Pourcieux) e que desenvolve uma série de ações no país para divulgar os rosados dessa região francesa. "Os brasileiros vão ouvir falar muito sobre esse vinho ao longo do segundo semestre de 2009 por conta das ações enogastronômicas planejadas para acontecer até o final do ano", afirma Raphäel Allemand, coordenador do Provence Club Brasil.

Allemand explica que existem eventos agendados em várias cidades brasileiras como Goiânia (GO), Ribeirão Preto, Franca e Campinas (SP), Florianópolis (SC) e Curitiba (PR), que incluirão palestras, degustações, harmonização de rosés da Provence com a culinária japonesa, francesa e brasileira, entre outros. Ainda no segundo semestre, François Millo, diretor do Conselho Interprofissional dos Vinhos de Provence, virá ao país para acompanhar de perto a agenda de projetos relacionados ao Ano da França no Brasil.

De acordo com Jeanne Marioton, os brasileiros escolhem os vinhos pela cor, diferentemente dos franceses, que apreciam a bebida pela região onde ela é produzida. "Explicar sobre sua estrutura e textura ajuda a promover o produto porque o brasileiro é, naturalmente, curioso, e isso é positivo para o aprendizado de uma nova cultura", revela. Para estimular o consumo no Brasil, Jeanne acredita que, além da informação detalhada que deve ser passada aos consumidores, é importante que os vendedores, atendentes de mesas nos restaurantes, sommeliers, restaurateurs, maîtres, entre outros, estejam aptos a promover o vinho em seus estabelecimentos.

"Na verdade, estamos trabalhando com uma quebra de paradigmas, então, a primeira barreira a ser superada é a falta de informação", explica a consultora. Ela conta que, quando começou o trabalho de divulgação do produto, encontrou homens que tinham preconceito em relação à bebida por causa da cor rosa - culturalmente associada no país ao público feminino.

Receitas brasileiras - Nos últimos anos, muitos restaurantes e importadoras das principais capitais do país vem realizando alguns eventos especiais com o intuito de mostrar aos clientes as possíveis combinações da bebida com diferentes tipos de receitas. A importadora Le Tire-Bouchon, em São Paulo, por exemplo, organiza jantares semanais dedicados a harmonização de vinhos (incluindo os rosés) com especialidades gastronômicas tipicamente brasileiras, como o bobó de camarão. "O objetivo é encontrar um equilíbrio ideal de sabores", afirma o francês Jean Raquin, um dos proprietários da casa. Ana Maria Vianna, sommelier e consultora do Club Provence Brasil, explica que os pratos servidos à base de peixes
não pedem, necessariamente, um vinho branco. "Eles podem ser acompanhados de um rosé; já os defumados casam perfeitamente com um Chardonnay."

ONDE ENCONTRAR

Confira abaixo as principais importadoras, lojas e supermercados onde é possível comprar vinhos rosé

Provence Club Brasil
www.vinsdeprovence.com/brasil
Casa Flora: Château des Chaberts, Château de Pampelonne
www.casaflora.com.br 
Cantu: Château de Pourcieux
www.cantu.com.br 
Carrefour: Réserve de Candélon, Cépage Gris, Carte Noire, Rosé de Provence
www.carrefour.com.br 
Enoteca Fasan Rimauresq
www.enotecafasano.com.br 
KB-vinrose: Duc de Raybaud, Château Real d´Or, Domaine de Pontfract, Cuvée Marion, Pétale de Rose, Cuvée Bacchus, Cuvée du Golfe de Saint-Tropez
www.kb-vinrose.com 
Le Tire-Bouchon: Château Deffends, Provence One, Saint Roch, Mas de Cadenet, Domaine de Sulauze
www.letirebouchon.com.br 
La Cave Jad Cuvée Tuffeaux 2006, Cuvée Oxygène Rosé, Cuvée Fantaisie Château Joliet
www.cavejado.com.br
Mercovin Saint Sidoine
www.mercovino.com.br 

Para Rafael Despirite, chef do restaurante Marcel, em São Paulo, a harmonização de vinhos com pratos à base de carne branca de frangos ou de peixes que levem molho de tomate, como a coxa de galinha d´Angola confit com geleia de pimenta ou ainda o badejo, preparado pelo chef, podem e devem ser servidos com um rosé Châteaux de Pourcieux. Emmanuel Bassoleil, do restaurante Skye, do Hotel Unique (SP), afirma que, no Brasil, os clientes costumam pedir vinhos rosés em receitas que levem legumes, molhos e plantas aromáticas.

Enquanto o preconceito por parte dos brasileiros em relação a esse tipo de vinho começa a ser quebrado, muitos empresários visionários já investem no produto há algum tempo. Foi a paixão pela bebida que solidificou a união empresarial entre duas francesas, Jeanne Bourguignon e Dorothée Souchaud. Apesar de terem crescido em épocas diferentes, elas viveram uma infância muito parecida. "O vinho é como uma pintura que aprendemos a olhar e a apreciar", diz Dorothée, relembrando os ensinamentos de sua avó. Com o objetivo de trazer ao país produtos de qualidade que, ao mesmo tempo, resgatem a cultura de seus familiares, elas fundaram recentemente na cidade de São Paulo a Cave Jado, que também comercializa rosados produzidos na França.

Vincent Kieffer, diretor da KB-vinrose, a primeira importadora voltada exclusivamente à venda de rosés da Provence explica que, quando começou a comercializar esse tipo de bebida no país, ela não tinha nenhuma visibilidade no mercado nacional. "Nosso objetivo é associar a imagem dos rosés à arte de viver à francesa", afirma Kieffer. Segundo o diretor, a orla marítima de Saint-Tropez, o charme de Aix-en-Provence, a luminosidade de Porquerolles e os vilarejos do norte de Nice até La Ciotat, perto de Marseille, são os cartões de visita que serão utilizados para conquistar pouco a pouco os consumidores brasileiros.
 

TRADIÇÃO MANTIDA

Em janeiro deste ano, uma nota autorizando a mistura de tintos e brancos para fabricar rosés causou furor nos vinhedos da Provence. A notícia que surgiu na imprensa especializada desencadeou uma verdadeira "tempestade em taça de vinho" para alguns puristas e uma verdadeira ameaça ao "patrimônio vinícola francês" para outros. Na realidade, essa notícia não chegou a provocar qualquer reação negativa na grande massa de consumidores que ignoram (ou ignoravam, até então) como é produzido o vinho rosado. Alguns meses depois, a Comissão Europeia voltou atrás na decisão. De fato, esse miniescândalo revela, sobretudo o desconhecimento do público sobre a arte de fazer um bom rosé, obtido por dois métodos: o saignée, ou sangria, e o pressurage direct. No primeiro, filtra-se parte do mosto de um tinto após um curto período de maceração, normalmente de oito a 24 horas. Este processo é o mais utilizado em todo o mundo e gera um tipo de rosado mais encorpado e de cor mais cereja. No segundo, a maceração é bem mais curta e dura apenas o tempo em que as uvas são delicadamente prensadas pneumaticamente depois do esmagamento dos bagos (separação das cascas da polpa). O produto é um rosé leve, de cor delicada, que pode ser descrita como salmão, pêssego ou cor de casca de cebola. Este método é o utilizado na Provence e, praticamente, só nessa região.

LINKS