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Em 2050, a população mundial corresponderá a nove bilhões de habitantes, com dois terços concentrados em regiões urbanas, preveem analistas. Assegurar moradia, alimento, água e saneamento básico às pessoas não será, no entanto, o único desafio para o futuro, considerando-se os atuais e elevados índices de devastação ambiental e de emissão de gases de efeito estufa. Quem faz o alerta é Jacques Marcovitch, professor da FEA/USP, ao destacar que essa tendência reforça a necessidade de integrar, cada vez mais, a sustentabilidade e a inovação aos modelos de negócios. "O compromisso de criar processos e produtos, que garantam a eficiência energética, a redução de emissões de gases de efeito estufa, o uso sustentável dos recursos naturais e a preservação da biodiversidade, deve abranger toda a cadeia setorial, dos fornecedores até os canais de distribuição", afirma.
Na França, as inovações nos setores de energia, cimento, celulose e papel, vidro, cerâmicas, siderurgia e metalurgia, entre 2005 e 2007, reduziram em 3,5% as emissões de gases de efeito estufa. "A associação francesa La F@brique du Futur, por exemplo, busca conciliar pesquisa e inovação com os valores do desenvolvimento sustentável", explica Marcelo Abrantes Linguitte, diretor-gerente da Terra Mater Empreendimentos Sustentáveis.Em terras brasileiras - que segundo o executivo é responsável por pouco mais de 1,6% da produção científica internacional - o maior exemplo nesse sentido refere-se ao desenvolvimento do etanol.
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ALTERNATIVAS CRIATIVAS
Reduzir em cinco quilos a produção de lixo nos próximos cinco anos. Esse é o desafio que o Ministério do Meio Ambiente da França propôs à população para atingir a meta de desenvolvimento sustentável estipulada no Grenelle Environnement. Assim como todos os setores que integram o acordo, as empresas da área de meio ambiente foram convocadas a criar soluções inovadoras dentro de suas especialidades. Alguns projetos foram apresentadas no Brasil durante a Ambiental Expo 2009, realizada em São Paulo entre 30 de junho e 2 de julho. Um dos destaques foi a ação da empresa Pena Environnement, que desenvolveu um processamento de resíduos com tempo reduzido em quatro semanas, gerando um composto orgânico que cumpre os padrões europeus. Realizado pela Ubifrance (Agência Francesa para o Desenvolvimento Internacional das Empresas) e pelas Missões Econômicas da França, a Ambiental Expo reuniu 24 entidades públicas e companhias privadas, entre elas a BRL Ingénierie, especializada em tratamento de água, e a Proactiva Meio Ambiente, do segmento de limpeza urbana, coleta seletiva e remediação de áreas impactadas. Ambas atuam em projetos em várias regiões do Brasil. | |
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José Carlos Barbieri, professor do departamento de Administração da Produção da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, diz, porém, que os efeitos sociais e ambientais têm menor previsibilidade, pois envolvem variáveis, incertezas e interações. "É comum observarmos vários discursos sobre sustentabilidade, mas pouco em relação à sua prática efetiva. Até porque a inclusão das dimensões sociais e ambientais requer novos modelos de gestão, que só recentemente ganharam mais intensidade", avalia Barbieri, ao ressaltar que iniciativas importantes sobre o tema foram implantadas no Brasil.
"A Natura, a Suzano Papel e Celulose e a Native são algumas das empresas que levam em conta esses fatores no país", exemplifica o professor. Mas não cabe somente às companhias essa tarefa. "As instituições de ensino e pesquisa, entidades governamentais, instituições de normatização, consultorias e organizações da sociedade civil têm participação relevante nessa questão", completa. Agências de fomento e apoio a pequenas empresas, como o Sebrae, no Brasil, e a Oseo-Anvar, na França também desempenham um papel de incentivo às novas práticas. | |
Assim como nas companhias citadas por Barbieri, a inovação sustentável é hoje parte das estratégias e dos investimentos da Vale. Para criar uma matriz energética mais limpa, a empresa estabeleceu recentemente um consórcio com a Biopalma da Amazônia, no qual detém 41% de participação, com o intuito de produzir óleo de palma. Das 500 mil toneladas de óleo anuais previstas, parte será utilizada na obtenção de biodiesel no centro-norte do Estado do Pará, a partir de 2014. Serão cerca de 160 mil toneladas anuais do combustível destinadas exclusivamente para o consumo da Vale, com a finalidade de abastecer a frota de 216 locomotivas do Sistema Norte e as máquinas e equipamentos de grande porte das minas de Carajás.
Os planos incluem o uso do derivado do óleo no desenvolvimento da mistura B20 - composta por 20% de biodiesel e 80% de diesel comum -, alinhando-se antecipadamente à regulamentação que prevê a obrigatoriedade do combustível em 2020, tornando a Vale autossuficiente nessa produção.
Incluindo os recursos da Biopalma, US$ 500 milhões serão destinados à produção do óleo, sendo que mais de US$ 120 milhões já foram investidos até abril de 2009. Outro projeto da empresa é o Biocombustível, que aplicará a mistura de gás natural - em concentrações de 50% a 70% - e diesel nas locomotivas da empresa, testada primeiramente na Estrada de Ferro Vitória a Minas. A meta é reduzir a emissão de 73 mil toneladas de CO2 anualmente.
Na Imerys do Brasil, produtora de aditivos minerais, as práticas de sustentabilidade buscam atingir duas metas: a diminuição do consumo de água e de energia elétrica. "Iniciado no final de 2008, o projeto de reaproveitamento de água visa reduzir em cerca de 20% o consumo por tonelada de minério produzido até o final do ano", conta André Luiz Guedes, gerente de segurança, saúde e meio ambiente. Em fase de avaliação, o projeto de economia energética será colocado em prática em 2010. "A intenção é diminuir em 15% o uso de energia, a partir da troca dos motores de bomba e do agitador por equipamentos mais eficientes", acrescenta.
A instalação de uma nova unidade de secagem de carbonato de cálcio precipitado (PCC) - pigmento usado na fabricação de papel, tinta, creme dental, entre outros -, em 2007, é outro exemplo de ação sustentável da empresa, citado por Guedes. "A substituição do sistema de secagem drum dryer (tipo tambor) pelo flash dryer (fechado) diminuiu em quase 30% o consumo de energia e eliminou a emissão de gases. O equipamento, que funciona à base de gás natural, proporcionou economia de espaço e maior produtividade. "Iniciativas como essas refletem diretamente nos ganhos financeiros, no reconhecimento dos clientes e na redução dos custos operacionais."
Eco-contêineres - A Lafarge, por sua vez, adota na fabricação de cimento resíduos urbanos co-processados. O programa, realizado em parceria com a prefeitura local, foi implantado inicialmente na cidade de Cantagalo (RJ) em 2007. "Hoje são co-processadas, em média, 30 toneladas/mês de rejeitos gerados no processo de compostagem, o que representa 5% do lixo total do município", declara Paulo Salomão, gerente de ecologia industrial da Lafarge. A próxima etapa prevê o reaproveitamento de resíduos destinados a aterros sanitários.
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Amplamente aplicado em território brasileiro, o método de co-processamento, segundo Salomão, também permite que os resíduos urbanos sejam destruídos e, ao mesmo tempo, substituam parte do combustível e das matérias-primas necessárias para a produção de cimento, sem interferir na qualidade do produto. "A Lafarge já utilizava resíduos urbanos na Europa. Para a caracterização dos rejeitos em Cantagalo, contamos com o apoio da Fundação Coordenação de Projetos, Pesquisas e Estudos Tecnológicos (Coppetec) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)", explica. |
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O baixo volume de resíduos na baixada fluminense, por enquanto, dispensa a aplicação do processo de trituração dos rejeitos - que usualmente antecede o co-processamento. Mas como a intenção da Lafarge é expandir essa iniciativa para outras fábricas, a implantação de uma planta piloto demandará investimentos de R$ 1 bilhão até o final de 2010. "Com isso nossa capacidade de co-processamento de resíduos urbanos será ampliada 10 vezes", prevê o executivo.
No setor de hotelaria, a sustentabilidade é meta para a rede Ibis, do grupo Accor. Desde 2002, a marca se mantém alinhada a quatro diretrizes: economia de água; promoção do uso de energia renovável; coleta seletiva e reciclagem de lixo; e aumento da sensibilização dos hóspedes, além da conscientização dos colaboradores e fornecedores. As medidas seguem as recomendações da Carta Ambiental da Indústria Hoteleira, lançada em 1998, e iniciativas locais do programa Earth Guest Accor, introduzido em 2006. Ações como essas resultaram, em 2004, na conquista da certificação ISO 14001 em 19 hotéis da França. Até janeiro deste ano, 244 unidades mundiais foram certificadas - o equivalente a 30% da rede -, incluindo os 50 empreendimentos localizados na América do Sul. O objetivo agora é elevar esse índice para 75% até 2010.
A conscientização de pescadores e de turistas da Ilha de Itaparica (BA) recebe o apoio da rede francesa de resorts Club Med que, em parceria com a ONG Pró-Mar, desenvolve projetos como o Bijupirá Brasil, oferecendo condições para que os pescadores gerem renda por meio da criação do peixe que dá nome à ação. A intenção é integrar cinco mil famílias de ribeirinhos, alcançar uma produção de 100 mil toneladas de bijupirá e reduzir o uso de bombas durante a pesca, capaz de provocar danos ao meio ambiente e acidentes.
Para garantir a preservação dos corais da Ilha de Itaparica - em especial nas áreas de proteção ambiental Recife das Pinaúnas e Estação Ecológica Ilha do Medo - proposta pelo projeto Maré Global, o Club Med divulga a funcionários e hóspedes os métodos mais adequados e eficientes de cuidar da biodiversidade local. Crianças hospedadas no Village Itaparica são motivadas a participar do Reef Check Kids, uma atividade de classificação e preservação de corais.
No setor de logística, informações registradas em relatórios mensais sobre a movimentação de sua frota auxiliam a CMA-CGM a traçar planos de redução de emissões de dióxido de carbono (CO2). "Além disso, introduzimos um sistema de injeção eletrônica nos navios, que diminuiu em 25% o consumo de óleo nos cilindros, no processo de combustão", conta Paulo Gudergues, diretor comercial da CMA-CGM. Para promover a segurança marítima e a proteção ao meio ambiente, a empresa, que se associou ao Clean Cargo Group e assinou a Charte Bleue d´Armateurs de France, adotou em seus contêineres frigoríficos o Freon R-134, um gás não nocivo para a camada de ozônio, em substituição ao CFC. "Oferecer contêineres com piso de bambu, matéria-prima que substitui o compensado naval e contribuiu para a redução do desmatamento, foi outra ação pioneira", observa Gudergues.
Considerando que a atuação sustentável combina metas de negócios com responsabilidade corporativa, a Alcatel-Lucent decidiu promover ações que visam não somente a redução de impactos ao meio ambiente durante a produção, mas também a emissão de CO2 em todas as filiais. Para oferecer soluções em telecomunicações que gastem menos energia, a empresa desenvolve guias para medir e aumentar a eficiência do consumo e agora pretende integrar fontes alternativas, como a solar e a eólica.
Tanto que, no final de 2008, foi instalada mais uma base para redes sem fio (a de número 250), que traz como diferencial o funcionamento com energia solar. "A emissão de gases de efeito estufa foi minimizada em cerca de 1.300 toneladas/ano", conta Rosaly Harumi Ishihara, diretora de comunicação, marketing e responsabilidade social da Alcatel-Lucent, que destaca a divulgação dos relatórios de negócios e de desenvolvimento sustentável da empresa somente em versão eletrônica como outro projeto sustentável. "Com isso, evitamos o equivalente à emissão de 10,3 toneladas de CO2", afirma. A meta agora é diminuir em 10% as emissões em todas as unidades, até 2010, em relação aos índices registrados em 2007.
Valores legítimos - Aos clientes que buscam se adaptar às legislações ambientais, a Alstom - que atua como designer e fabricante de componentes para usinas elétricas - propõe um programa de redução de emissão de poluentes. Soluções que incluem troca de combustível da caldeira e da turbina a vapor em usinas de combustíveis fósseis podem reduzir em 5% a 30% as emissões de CO2. Para novas usinas acionadas a gás ou a carvão, a companhia oferece meios para capturar o CO2 da atmosfera e armazená-lo.
A Alstom também concentra seus esforços no desenvolvimento de programas de P&D relacionados às principais tecnologias de captura de CO2: a pós-combustão e a oxicombustão. Este último corresponde a um processo de queima do carvão que utiliza oxigênio em vez de ar, criando um fluxo de gases residuais composto de dióxido de carbono relativamente puro, facilmente capturado e armazenado. A principal vantagem é a possibilidade de implantar a solução em usinas novas ou nas já existentes.
É a partir da experiência destas empresas e das que atuam em outros setores - como os estudados na pesquisa Para mudar o futuro (www.usp.br/mudarfuturo), desenvolvida no âmbito da FEA/USP -, que poderão ser extraídas recomendações para elevar o número de corporações engajadas no compromisso da inovação sustentável. Afinal, como destaca o professor Marcovitch, "se olharmos a inovação pura e simplesmente como um fim em si, corremos o risco de alimentar um discurso aparentemente modernizador, porém destituído dos valores que tornem legítimo seu conteúdo". |