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No primeiro ano do curso de engenharia elétrica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), Daniel Wagner percebeu uma oportunidade. Em meio às inúmeras atividades da vida no campus, ele se ateve a ideia de estudar fora do país, motivado por um convênio internacional firmado na época pela Politécnica e pela École Centrale Paris, uma das mais prestigiadas escolas francesas de engenharia. Para conseguir a vaga, foi preciso conquistar média oito no conjunto de todas as disciplinas e se destacar entre os 20 melhores alunos. O esforço deu resultado. "A experiência foi extremamente positiva para minha vida e carreira. Fui para a França em 2002 e deveria voltar dois anos depois, mas optei por fazer estágio em uma empresa, retornando somente em 2005", lembra. Wagner manteria relações
à distância com a mesma companhia durante o ano e meio seguinte de estudos pendentes na escola técnica. O reconhecimento de seu trabalho logo deu lugar a um desafio irrecusável. "Quando me graduei, abri uma filial da Itelios (empresa francesa de desenvolvimento de software) no Brasil, que hoje conta com uma equipe de 14 pessoas", diz.
Experiências como essa são um diferencial cada vez mais exigido pelo mercado de trabalho. Além de formação específica, é ideal que o candidato a uma vaga ou a um cargo de liderança tenha experiência profissional e acadêmica internacional. A dupla diplomação é uma maneira de atingir esses objetivos, ampliar os horizontes e ganhar tempo. Atualmente, as relações franco-brasileiras oferecem diferentes opções de cursos reconhecidos nos dois países. Segundo dados do Centro franco-brasileiro de Documentação Técnica e Científica (CenDoTeC), 15 centros de ensino brasileiros e 42 franceses parceiros concedem 90 titulações para 450 estudantes com duplos diplomas em mãos ou em formação para recebê-los. Em 2006, existiam 70 certificações entre 13 universidades do país e 38 da França. "As instituições daqui aproveitam o maior número de parcerias do sistema de ensino superior francês. Um avanço para o Brasil seria viabilizar uma cooperação em rede para o tema", observa Carla Ferro, coordenadora do CampusFrance, agência de promoção da educação superior francesa vinculada à embaixada e coordenada pelo CenDoTeC.
Ela afirma que hoje há uma maior movimentação de gestores e coordenadores em busca de novos intercâmbios. A competitividade no setor da educação universitária, a necessidade de globalizar o campus e a inserção no mercado de trabalho de alunos mais preparados estimulam esse interesse. "A França foi um dos primeiros países a se internacionalizar no segmento. Por isso, pode compartilhar experiência. As empresas também estão mais informadas sobre esses convênios", acrescenta, ao explicar que as instituições públicas são maioria na cooperação com a França, mas evita comparações. "O referencial deve ser a excelência do ensino, não a origem da universidade", aponta.
Visão humanista - Aprender no idioma francês, no entanto, não é um costume de estudantes brasileiros, mais interessados tradicionalmente por países de língua inglesa. Gilberto Guimarães, diretor-presidente da Groupe BPI no Brasil, destaca uma diferença marcante. "Da perspectiva da empresa que contrata, a cultura francesa representa uma visão mais humanista do que a americana, por exemplo. Este conceito de responsabilidade humana e social é cada dia mais valorizado no mercado de trabalho", avalia.
A vantagem, neste caso, é o interesse das companhias tanto pelos profissionais enviados pelas matrizes quanto pelos que estudaram no exterior e acabam de voltar. "Os executivos que vêm para o Brasil participam de missões por períodos determinados, como parte de um projeto de carreira. Em princípio, retornam promovidos para seu país de origem quando obtem sucesso", esclarece Guimarães. Esse diferencial, somado à procura por candidatos com conhecimentos da terceira maior economia europeia, parece explicar a variedade de opções, dirigidas a profissionais experientes e alunos de graduação. Em alguns casos, os estudos realizados são aceitos também em outros países.
A universidade Anhembi Morumbi, de São Paulo, oferece curso de comércio internacional com opção de dupla titulação na École Supérieure du Commerce Extérieur (Esce), de Paris. Com a certificação, o aluno conquista um diploma válido em toda a Europa. "Trata-se de um grande mercado para os produtos nacionais, cuja influência cultural está muito presente no cotidiano de brasileiros. Além disso, a França é um dos países que mais têm estreitado as relações bilaterais com o Brasil em vários níveis", avalia o coordenador da Anhembi Morumbi, José Meireles. Os interessados devem cursar três anos em território brasileiro, realizar prova elaborada pela Esce e comprovar proficiência em francês e inglês. Se aceitos, estudam dois anos na escola francesa para obter o diploma. Meireles salienta que a troca de experiências e a vivência em outra cultura são elementos essenciais à formação de alto nível. Para ele, não há dúvida: a dupla titulação internacional crescerá nos próximos anos em resposta à necessidade de aprendizado global.
Alinhada a essa tendência, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO) encontrou na França um importante parceiro. Futuros engenheiros têm a opção de obter a dupla diplomação nos convênios mantidos com as Écoles Centrales de Lilly, Paris e Lyon, a INSA Lyon e Toulouse, a École de Mines de Nancy, em engenharia de produção, elétrica e química, e a L´École Nationale Superieure des Télécommunications de Paris, em engenharia de telecomunicações. Kerollyne Costa, coordenadora de intercâmbio da PUC-RIO, conta que mais de 20 alunos se interessam anualmente pelo programa.
"Nas Écoles Centrales, por exemplo, alunos brasileiros e franceses estudam as disciplinas de ciências básicas e das áreas de humanas em seus países, nos dois primeiros anos. Em seguida, os brasileiros vão para a França, onde ficam mais dois anos cursando o chamado Tronc Commun, com estudantes franceses", explica. Nessa etapa, palestras, projetos, visitas e estágios complementarão a formação dos participantes e, ao final, eles vêm ao Brasil, para a conclusão da especialização, com direito a estágio em empresas multinacionais. "Para isso, é preciso preparo prévio, como o conhecimento do idioma francês, disponível em cursos intensivos", acrescenta a coordenadora.
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DIÁLOGO BILATERAL
A Semana Franco-Brasileira de Ensino Superior, realizada de 2 a 8 de outubro em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, reunirá mais de 100 universidades francesas, proporcionando um maior diálogo bilateral e informações para estudantes interessados em estudar na França. Além dos programas de intercâmbio e de duplos diplomas, o evento, organizado em conjunto pelo CampusFrance e o CenDoTeC, em colaboração com o Faubai e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), divulgará ações de co-tutela de dissertações de mestrado e teses de doutorado, oportunidades de bolsas e financiamentos. Empresas participantes também contarão com um espaço específico dedicado à formação e à carreira em que poderão oferecer estágios e estreitar contatos com as universidades presentes. Em São Paulo, professores e estudantes vão ter ainda a possibilidade de acompanhar ateliês temáticos sobre programas de intercâmbio de ensino e pesquisa e agendar consultas individuais com representantes das escolas francesas. Agências e programas oficiais de fomento à pesquisa e à cooperação acadêmica, como Erasmus Mundus e Brafitec, complementam as opções do encontro. Outras informações: www.brasil.campusfrance.org
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Além da escolha do programa ideal, a preparação torna-se, portanto, fundamental para se tirar mais proveito da vivência no exterior. Na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), professores e coordenadores fazem essa recomendação logo no primeiro ano, com o objetivo de evitar situações inesperadas. "Fazemos apresentações durante as Semanas de Calouro e outros eventos de promoção de estudo em outros países e também atendimentos individuais", conta Renée Zicman, assessora de Assuntos Internacionais e Institucionais.
Segundo ela, muitos estudantes de ensino médio, mesmo antes de prestarem vestibular, têm consultado as vantagens do duplo diploma. Entre os mais de 80 convênios internacionais em 22 países (16 deles com a França), a escola mantém parceria com o Institut d´Études Politiques de Paris (SciencesPo Paris), considerado um dos mais renomados do mundo. "Identificamos nessa iniciativa um grande diferencial de qualificação acadêmica e reconhecimento internacional, além da possibilidade de concretizar uma crescente tendência à universalização, com o expressivo aumento da mobilidade dos estudantes", aponta Renée, que considera o libre pensée française um dos principais atrativos do país europeu, principalmente na área de Ciências Humanas. | |
A assessora diz que os intercâmbios internacionais - e especialmente os de duplos diplomas - são um dos melhores recursos disponíveis para as universidades comprometidas com o objetivo de formar profissionais e cidadãos mais preparados para atuar em mercados profissionais globais e interculturais, cujas demandas incluem novas habilidades e competências técnicas e pessoais. "Trata-se também de uma valiosa possibilidade de desenvolvimento de estudos comparados entre as escolas dos dois países", conclui.
Tendência à universalização - Bom desempenho e notas altas também são atributos exigidos para quem pretende conquistar a dupla certificação. Quem os enumera é Sergio Pio Bernardes, diretor nacional do curso de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). A recente parceria da instituição com a Schiller International University, dos Estados Unidos, gerou uma proximidade dos alunos com a França. "O campus da Schiller em Paris é uma das opções oferecidas pelo convênio", diz.
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Para os que buscam se destacar no mercado, mas não fazem planos de viagem de longo prazo, a Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) desenvolveu o curso de pós-graduação Master em Gestão da Informação Digital e do Conhecimento com a Universidade Paul-Valéry, de Montpellier. "Nesse caso, os alunos não vão para a França. São os professores que vêm ao Brasil", revela o diretor das Faculdades de Engenharia e de Computação e Informática da FAAP, Francisco Paletta. | |
 Campus da FAAP, em São Paulo |
Em 18 meses - um final de semana por mês - estudantes da instituição participam de aulas expositivas, estudos de casos, entre outros, além de palestras e seminários com especialistas e professores da Universidade Paul-Valéry, Universidade Carlos III (Espanha) e Universidade de Coimbra (Portugal). "A vantagem é que, mesmo estando no país, o participante é também aluno de Montpellier, com direito a especialização Master II em francês. Ele também pode continuar o doutorado na França ou em outra universidade europeia, caso deseje", destaca o diretor. Com o objetivo de promover o Brasil como destino para estudantes estrangeiros, o OneMBA, programa executivo da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV-EASP) realizado em cinco países, posiciona a cidade de São Paulo como ponto privilegiado para entender os mercados brasileiro e sul-americano - o mesmo é feito na China, Holanda, nos Estados Unidos e no México. A proposta é aproximar ao máximo os participantes da realidade econômica e social dos países em questão.
Rede de contatos - A exemplo de outros produtos, como o mestrado em relações internacionais, gestão e comércio em parceria com a SciencesPo Paris, parte do OneMBA é ministrada na RSM Erasmus University (RSM), em Rotterdam, considerada uma instituição de vocação internacional procurada por estudantes de toda a Europa. "Trabalhar com colegas de cada um dos mercados abordados é uma vantagem competitiva. Por isso, tentamos explorar o perfil do executivo capacitado para atuar em diferentes regiões, que precisa ser curioso, aventureiro e interessado em coisas novas. Esperamos que os alunos tenham essas qualidades", diz Marina Heck, coordenadora do MBA.
Assim como Daniel Wagner, vários profissionais conseguiram transformar o que aprenderam em negócios concretos, aproveitando o caráter internacional dos programas. Outro desdobramento é a possibilidade de criar uma rede de contatos bastante ampla e variada, aumentando as possibilidades de contratação e de novos empreendimentos. Os MBAs são muitas vezes uma alternativa de interesses pessoais, e não somente profissionais. Uma pesquisa anual do Financial Times, com 65 mil executivos e estudantes, revela que seis entre cada nove entrevistados se matriculam para melhorar a carreira - o que inclui o conhecimento de idiomas e de outras culturas. Metas mais pontuais, como aumentar o conhecimento de gestão e o salário, são consideradas secundárias.
"É interessante destacar que as posições de gestão no país estão, cada vez mais, sendo ocupadas por brasileiros, provocando uma queda na procura de empresas por expatriados, outra vantagem para quem estuda em território francês", diz Frédéric Donier, sócio-diretor da Crescendo Consultoria, ao considerar que hoje o interesse da França pelas oportunidades em educação no Brasil também é crescente.
"Um exemplo é o Instituto Heliópolis de Tecnologia & Gestão da Inovação, em Santa Catarina, resultado de uma parceria entre a École Nationale Supérieure des Mines de Saint-Étienne (ENSM-SE), a Associação Catarinense de Empresas deTecnologia e o Instituto de Cidadania e Estudos Públicos", explica. Dedicada
à formação de profissionais de alto nível e à pesquisa orientada, a ENSM-SE reforça sua presença no país oferecendo cursos de pós-graduação, pesquisa, extensão e serviços voltados à gestão da inovação, microeletrônica, biotecnologia, telecomunicações. "Esse é outro resultado importante gerado pelos convênios existentes entre universidades dos dois países, que comprova que a educação globalizada é realmente um campo promissor", finaliza Donier. |