| VEJA NESTA EDIÇÃO |
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| No. 293 agosto/setembro 2009 |
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| ENTREVISTA |
| Marc Giget |
TEMPO DE MUDANÇA |
Para o especialista do Conservatório de Artes e Ofícios de Paris, os períodos de instabilidade econômica são os mais propícios às grandes transformações, e o Brasil tem grande potencial para se tornar um polo de inovação no futuro
MÁRIO CÂMERA, de Paris | |
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Fundador do Instituto Europeu de Estratégias Criativas e de Inovação e professor do Conservatório de Artes e Ofícios de Paris (CNAM), Marc Giget é, antes de qualquer coisa, um otimista. "As pessoas vivem mal, mas, globalmente, a sociedade vai muito bem." Segundo ele, isso é consequência direta das inovações, que devem trazer o tão esperado progresso que facilita a vida dos cidadãos. Enquanto preparava mais uma visita ao Brasil - no ano passado, esteve em Curitiba (PR) para abrir o 3º Simpósio de Inovação Tecnológica do SENAI - Giget concedeu uma entrevista à revista França Brasil, na qual falou sobre a importância da inovação no Brasil e no mundo, e garantiu que tempos de crise são os mais propícios para as grandes mudanças. "Todas as ondas de inovação estiveram ligadas a períodos de recessão econômica."
Revista França Brasil - Qual é, em sua opinião, a melhor definição de inovação e em que ambiente ela se desenvolve com mais facilidade? Marc Giget - Inovar é integrar o conhecimento a algo criativo e útil para as pessoas; serve para melhorar a condição humana. Os sonhos e os desejos são constantes - viver mais feliz, não se sentir mal, garantir o futuro dos filhos, ter um trabalho interessante. A inovação permite que eles se tornem acessíveis. E esse é o papel das empresas. O pesquisador faz com que a ciência avance, mas são as companhias que transformam invenções em produtos.
FB - O senhor afirma que "a inovação é um estado de espírito". Explique melhor esse conceito. MG - A inovação é feita de grandes momentos. A sociedade não gosta de mudanças, ela precisa de normas para não destruir constantemente o que foi criado. Por isso, é necessário que haja um acúmulo de novos conhecimentos para que, em certa ocasião, todo o sistema seja reestruturado. Vemos isso com a música; depois dos vinis, vieram as fitas K7, os CDs e, agora, o MP3. Antes você tinha 12 músicas em um CD, agora tem 12 mil em um iPod.
FB - Em relação aos "grandes momentos" que acaba de citar, o mundo passa atualmente por uma grave crise econômica. Este é um bom período para mudanças? MG - Sim. Todas as grandes ondas de inovação estiveram correlacionadas com uma crise financeira violenta. O economista Joseph Schumpeter definia a inovação como um "fenômeno de destruição criativa", pois o que tinha valor antes acaba e novos valores são criados. "Um mundo termina e outro emerge", dizia Schumpeter. Hoje, vivemos exatamente essa situação.
FB - Mas a falta de crédito não pode prejudicar esse momento? MG - Não necessariamente. Isso é o que contam os governos, mas quando analisamos a inovação, o que vemos é a geração de riqueza. Ela é o motor de um país e não precisa de investimento maciço. Muitos produtos só custam caro porque são taxados pelo Estado. É o caso dos leitores de MP3 em relação aos CDs, por exemplo.
FB - Como o Brasil se posiciona diante de outros países quando o assunto é inovação? MG - O Brasil está criando um modelo próprio. Ele tem recursos naturais muito importantes, além de uma economia equilibrada. Tudo isso faz com que tenha grandes feitos nas áreas de ciência, tecnologia e inovação - o país , por exemplo, está em décimo lugar entre os que mais produzem patentes no mundo. Em todos os lugares, nós ouvimos que ele aparece como um dos novos países inovadores. Ninguém ousou fazer algo como Brasília: criar uma capital começando do nada, com uma arquitetura incrível. Não foi copiado de ninguém, não havia modelo de referência. Há outros exemplos, como a usina hidrelétrica de Itaipu, o sistema de ônibus de Curitiba. Inovar é tomar a iniciativa, é não adaptar-se à corrente em vigor.
FB - E em relação aos outros dois grandes países emergentes, China e Índia? MG - Antes, é preciso lembrar que o Brasil é mais desenvolvido do que a China e a Índia, no entanto, existem algumas diferenças fundamentais. Enquanto China e Índia formam mais engenheiros, as universidades brasileiras públicas e privadas recebem mais alunos em cursos de História, Arte, Comércio etc. Há menos atração tecnológica em comparação aos outros dois países. Mas o mundo agora é mais aberto, ou seja, não é somente uma questão de tecnologia. Existem setores nos quais o Brasil pode se tornar líder mundial, como, por exemplo, o de biocombustíveis.
FB - E a França? MG - A França é um caso particular. Talvez seja um dos lugares do mundo onde o Estado mais intervém em inovação. Existem vários centros nacionais de pesquisa em todos os grandes setores, que foram criados após a II Guerra Mundial. É um país onde as políticas têm um papel muito importante e que tem uma visão bem tecnológica acerca do assunto. Além disso, existem grandes empresas que são muito fortes neste campo, como a Michelin, a L'Oréal, entre outras.
FB - Brasil e França podem trabalhar juntos nesse sentido? MG - Já existem programas de cooperação entre os dois países nas áreas de ciência, tecnologia e educação. O que falta é que isso ocorra entre as empresas. Existem grandes grupos franceses presentes no Brasil, mas não muitas empresas brasileiras instaladas na França. Os brasileiros cooperam muito mais com China, Estados Unidos e Alemanha. Eu diria que, atualmente, o grau de cooperação para inovação entre Brasil e França é considerado médio.
FB - Qual o papel das pequenas e médias empresas no universo da inovação? MG - Um papel importantíssimo. O sistema se renova por meio de novas empresas, que vão aproveitar o progresso dos conhecimentos e das técnicas para criar produtos e serviços totalmente inovadores.
FB - Chegamos ao final da primeira década do século 21. Qual foi a maior inovação dos últimos dez anos? MG - Isso é difícil de dizer. O Google nasceu há dez anos, por exemplo. Houve grandes inovações em todas as áreas, no entanto, falamos mais dos exemplos da internet e da telefonia celular. As inovações são difíceis de serem medidas pelo tempo. Às vezes, demoram anos para que saiam dos laboratórios e cheguem ao público. No setor de saúde existem várias revoluções, que permitirão a um cego enxergar, por exemplo; o coração artificial também é uma inovação incrível, assim como as descobertas em manipulação genética, biologia molecular. Outra novidade que deve chegar ao público em breve é o intérprete automático. Isso vai diminuir a barreira linguística e cultural. | |
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