Por mais que se tente, não tem como fugir do clichê: o Vale do Loire é mesmo um cenário de conto de fadas. Há mais castelos nessa famosa região francesa do que em qualquer outra parte do mundo. Foi nesse território, delimitado pelo maior rio do país, o Loire, que os nobres franceses renascentistas optaram por erguer suas suntuosas moradias, os quais hoje formam um importante conjunto arquitetônico reconhecido como patrimônio da humanidade. Preservadas, as construções têm diferentes estilos com torres imponentes, pontes elevadiças, muralhas, mobiliário original, jardins geométricos e centenas de aposentos. Nesta reportagem, convidamos os leitores a nos acompanhar em uma viagem de carro rumo ao Vale do Loire, partindo de Paris. As estradas são bem sinalizadas, e o risco de se perder é muito pequen basta seguir as placas em direção à cidade de Bordeaux.
Da capital francesa a Orléans, início da região, são aproximadamente 130 quilômetros seguindo pela A-10. A cidade é conhecida mundialmente por ser o local onde Joana D´Arc liderou a batalha contra os ingleses em 1429. A casa em que a heroína se hospedou durante essa passagem histórica hoje abriga a Maison Jeanne D´Arc, espaço que reconta a trajetória da jovem mártir. Depois de conhecer o museu de Belas Artes e a catedral de Saint-Croix, a melhor opção é seguir viagem margeando o Rio Loire, rumo a Blois, que fica a 57 quilômetros de Orléans.
Repleta de construções históricas e ladeiras, a cidade foi feudo dos condes de Blois e alcançou status de residência real no século XV. O Château de Blois serviu de sede à monarquia até Henrique IV transferir a corte para a capital francesa em 1598. O castelo, cujas alas mais antigas remontam ao século XIII, possui móveis originais e quadros que retratam alguns momentos históricos, como o assassinato do Duque de Guise, em 1588. Suspeito de liderar um complô dos católicos contra Henrique III, ele foi apunhalado pelos guardas no quarto do rei. Vale à pena percorrer o aposento de Catarina de Médici, com seus closets secretos, nos quais, supostamente, ela escondia porções de veneno. A ala Luís XII abriga atualmente o Museu de Belas Artes Decorativas e o Museu Arqueológico.
A cerca de 16 quilômetros de Blois, encontra-se um dos castelos mais famosos do Vale do Loire: o Chambord. Com 440 cômodos, 85 escadarias e 365 chaminés (uma lareira para cada dia do ano), é uma obra-prima renascentista que teve sua construção iniciada em 1519. Acredita-se que os desenhos das primeiras plantas, até mesmo um esquema para desviar o curso do Loire, para que o rio passasse próximo ao lugar, sejam de Leonardo da Vinci. Por toda parte avistam-se imagens de salamandras (são 700 ao todo), emblema de Francisco I, que reinou na França entre 1515 e 1547. Dentro do castelo é impossível não ficar impressionado com os detalhes da construção e o luxo dos aposentos reais, forrados com veludo bordado.
Vista panorâmica - Os turistas vão precisar de pelo menos três horas para percorrer as várias alas do Chambord, tirar fotos e visitar a loja de souvenirs (a melhor de todos os castelos). Uma boa dica para que a viagem não seja muito cansativa é procurar um pequeno hotel nas redondezas e retomar a viagem no dia seguinte. De volta à estrada, 34 quilômetros separam Blois de Amboise, em um percurso repleto de restaurantes e diversas vinícolas abertas à visitação. No caminho, não deixe de conhecer o castelo de Chaumont-sur-Loire, de 1510, localizado no alto de um vale, de onde se tem uma vista panorâmica da região.
Antes de chegar à Amboise, outra parada obrigatória é o Château de Chenonceau, inteiramente construído sobre as águas do Rio Cher e conhecido como o castelo das mulheres. Catherine Briçonnet, esposa do primeiro proprietário, projetou o pavilhão das torres e a escadaria de um lance; Diana de Poitiers, amante de Henrique II, acrescentou os jardins e a ponte sobre os arcos; Catarina de Médici fez da ponte uma galeria em estilo italiano; Louísa de Lorena, mulher de Henrique III, herdou o castelo em 1590 e mandou pintar os tetos de branco e preto, as cores do luto real; Madame Dupin salvou a construção de ser destruída durante a Revolução Francesa; e Madame Pelouze providenciou sua restauração em 1863.
No final do século XIX, o historiador Léon Palustre aconselhava os visitantes a acessar o castelo pelas águas. Existia, à época, um barco a vapor que fazia o trajeto a partir do Rio Cher, de onde era possível alugar pequenas embarcações em Bléré, que fica a 25 quilômetros de Tours - até hoje é possível chegar ao château dessa maneira. Por terra, o percurso pode ser feito em um caminho onde quilômetros de alamedas de árvores bordam as margens do rio. Ao norte, uma rota de quase 20 quilômetros atravessa a floresta de Amboise rumo ao local.
Depois de um longo período de apogeu, o castelo de Chenonceau caiu no esquecimento e só ressurgiu no século XVIII, quando o filósofo Jean-Jacques Rousseau se instalou ali. Desde 1913, o Château pertence à família Menier, tradicional fabricante de chocolates. Durante a alta temporada, os visitantes são surpreendidos por espetáculos de sons e luzes nos jardins da propriedade.
De volta à estrada, Amboise é o próximo destino. Pequena, acolhedora e de grande importância histórica, abrigou várias gerações da dinastia francesa - foi moradia de Luís XI e Carlos VII e visitada com frequência por Catarina de Médici e Francisco I. Vale à pena visitar o Manoir du Clos-Luce, museu que funciona na casa onde Leonardo da Vinci viveu seus últimos anos. Maquetes de suas invenções, mobiliário de época e uma cópia da obra Monalisa são algumas das atrações do lugar.
No centro da cidade encontra-se o Château D´Amboise, que conserva apenas parte de sua estrutura original, mas ainda impressiona com seu telhado de ardósia e suas paredes claras. A biografia do castelo narra a história de Louis D´Amboise, que tentou tirar o trono de Charles VII, em 1431. Por esse crime ele foi condenado à morte; teve seus empregados confiscados e seus bens comprados pela Coroa. Depois de uma longa ocupação pelos ingleses, o château passou por uma grande reforma com ampliação dos cômodos, construção da Torre Hurtault (ou torre de César) e da capela Saint-Hubert, erguida em estilo gótico, onde se encontram os restos mortais de Leonardo da Vinci.
Após a Revolução, Napoleão presenteou oficialmente o seu ex-cônsul Pierre-Roger Ducos com o castelo, pois, não tendo condições financeiras de mantê-lo, destruiu parte da construção em 1806. Para o visitante mais curioso, Amboise tem inúmeros caminhos subterrâneos cruzando galerias, acessadas somente com o auxílio de guias. Na Torre Garçonnet existe uma passagem secreta que leva até o porão lapidar, impressionante labirinto subterrâneo em direção à Torre des Minimes, que fica a 40 metros de altura e proporciona uma vista espetacular da região do Loire. Bem próximo à cidade, também é possível conhecer o Pagode de Chanteloup, um pavilhão construído pelo Duque de Choiseul no século XVIII, com sete andares, 44 metros de altura e formas inspiradas na arquitetura chinesa.
Pouco mais de 50 quilômetros separam Amboise de Azay-le-Rideau, que abriga um dos châteaux mais belos do Loire, o Azay-Le-Rideau, idealizado no século XVI por Philippa Lesbahy, mulher do ministro das Finanças de Francisco I e descrito por Balzac como "diamante multifacetado às margens do Indre". Ao longo do caminho, vale à pena fazer uma parada em Tours, cidade universitária construída sobre uma antiga vila romana e centro do cristianismo no século IV, além do Château de Villandry, conhecido por ter um dos mais belos jardins da França - mais importantes e visitados do que o próprio castelo.
Os jardins têm três níveis ligados por pérgolas e fontes. No terraço, fica o Jardin d´Eau, com um grande tanque que abastece de água o fosso e as fontes. Abaixo se encontra o Jardin Potager, com árvores frutíferas e ervas organizadas em padrões geométricos. No terraço sul, fica o Jardin d´Ornement, com canteiros de plantas ornamentais cultivados em formas geométicas de borboletas, espadas e corações, os quais simbolizam as diferentes formas de amor. Abandonado, o Château
de Villandry foi resgatado no início do século XX por um médico espanhol, Joachim Carvallo, e sua esposa Ann, herdeira de uma indústria de aço da Filadélfia. Depois da restauração do castelo, eles replantaram o jardim para que se parecesse exatamente com o original do século XVI.
Rodeado de verde, à beira do Rio Indre, a 30 quilômetros de Tours, fica o Château de Ussé. Erguido no século XV, com torres pontiagudas e rotas de fuga subterrâneas; serviu de inspiração à história A Bela Adormecida, de Charles Perrault. Cenas descritas na obra infantil são ambientadas em alguns cômodos. O château também é conhecido por seus jardins floridos. Depois de percorrer cerca de 48 quilômetros, chegamos à última parada dessa viagem, a cidade de Saumur, famosa por seu castelo com ares de conto de fadas, sua escola de equitação, seus cogumelos e seus excelentes vinhos espumantes.
A construção do château foi iniciada no século XIV, por Luís I de Anjou, e remodelada pelo seu neto, o rei René, um século depois. Sobrevivente dos intensos bombardeios em 1940, o castelo é cercado por charmosas casas de pedra totalmente restauradas. As ruas estreitas da cidade são ocupadas por casas de madeira e pedra citadas no romance Eugène Grandet, de Balzac. Atualmente o château é sede de um museu de equitação. Todos os anos, de julho a agosto, há divertidas apresentações noturnas de cavaleiros, recriando cenas da corte do século XV. Depois de percorrer as ruas de Saumur e conhecer as belezas naturais, arquitetônicas e gastronômicas do Vale do Loire, pegamos a estrada de volta a Paris e ao século XXI.