EDITORA CONTEÚDO
Tel.: 11 3898.0195
Fax: 11 3062.7319
 
VEJA NESTA EDIÇÃO

No. 295 dezembro 2009/janeiro 2010

CULTURA

CONSUMO COM ARTE
Esqueça as lojas de museus com prateleiras abarrotadas de miniaturas de esculturas gregas e de marcadores de livros estampados com obras de grandes pintores. O que se encontra atualmente nesses espaços da cidade de Paris são produtos diferenciados - de aparelhos eletrônicos a peças de design

MÁRIO CÂMERA, DE PARIS


 

 

Estamos no subsolo de um dos mais importantes museus do mundo, o Louvre, sob o peso de milhares de toneladas de obras de arte de diferentes estilos, procedências e épocas. Dividindo o mesmo espaço, a imagem de uma maça branca com uma marca de mordida chama a atenção dos visitantes para a novíssima Apple Store, a primeira loja da gigante americana aberta na França. Inaugurada no início de novembro, a unidade é mais um exemplo do que se pode encontrar atualmente nos museus parisienses. É verdade que ela não pode ser chamada de "lojinha", mas está posicionada ao lado de um importante acervo, no caminho de quem entra e sai do Louvre. Em suas prateleiras, os mais modernos lançamentos da indústria tecnológica são expostos como obras de arte.

A escada de vidro em espiral toma conta do hall principal, onde se espalham computadores, telefones celulares e tocadores de música de última geração. E se o cliente precisa de uma "visita guiada", 120 vendedores estão à disposição para explicar cada detalhe dos produtos à venda. A Apple Store é uma entre as 45 lojas que compõe o Carrousel do Louvre - um verdadeiro shopping center localizado nas entranhas do museu. Bem na frente da grande maçã, outro ícone do consumo mundial também disputa a atenção dos visitantes. Apesar da crise que a forçou a fechar várias filiais no mundo todo, a gravadora Virgin continua no local vendendo livros, cds, ingressos para shows, jogos de computador, entre outros itens. O Louvre também tem sua própria loja, onde é possível encontrar produtos exclusivos, principalmente em períodos
de grandes exposições. 

A profissionalização do comércio em locais culturais vem ganhando espaço desde a década de 1990 e atualmente as lojas de algumas instituições parisienses são uma atração à parte. Já foi a época em que se encontravam apenas porta-copos estampados com obras de grandes pintores ou reproduções reduzidas de esculturas gregas. O que se vê atualmente é uma oferta especializada, voltada a um público que vai além do visitante do museu. Agora, a "lojinha" fica instalada antes da bilheteria, então, não é preciso pagar o ingresso da exposição para frequentá-la.

Os artigos inspirados nas coleções ou nos acervos permanentes não desapareceram. Qualquer loja de museu ainda vende catálogos, posteres ou marca-páginas estampados com quadros famosos. A diferença, é que agora esses espaços também oferecem produtos que não são encontrados com facilidade em outros lugares - muito menos reunidos em um mesmo estabelecimento. Esse é o caso de muitas livrarias que funcionam dentro de grandes instituições culturais. A unidade da Galerie Nationale du Jeu de Paume, na place de la Concorde, é um exemplo disso. Criada por Christophe Jouanlanne, ela é especializada em cinema e fotografia contemporânea. Virou referência para quem é apaixonado pelo assunto e procura material de qualidade.

Os livros que ficam nas estantes podem ser encontrados em outros lugares, mas o catálogo com cerca de dez mil títulos e o ambiente agradável acabam pesando na hora de escolher onde comprar. Tudo isso, em um espaço completamente independente das salas de exposição e que, inclusive, chega a atrair mais gente do que o próprio museu em alguns dias da semana. Com o sucesso da Librairie du Jeu de Paume, a Cinémathéque de Paris decidiu chamar Jouanlanne para dar vida nova ao lugar. A decoração segue o mesmo estilo clean da concorrente, mas o investimento foi principalmente no catálogo, que agora tem títulos que abrangem desde a história do cinema à arquitetura das salas de projeção. Para completar, a livraria ainda promove ciclos de debates, organizados por temporadas para discutir a sétima arte.

Menos silenciosa e muito mais movimentada é a Flamarion Centre, que fica no térreo do Centre George Pompidou. Especializada em arte contemporânea, está sempre lotada. Os clássicos objetos desse tipo de comércio também estão entre os produtos à venda, mas em uma versão mais contemporânea. Também no George Pompidou, fica a que talvez seja a loja de museu mais frequentada de Paris: a Printemps Design. O espaço que passou do mezzanino da instituição para o térreo, conquista pelos objetos de arte misturados a artigos curiosos. Assim, é possível comprar a miniatura da famosa cadeira Wiggle Side, do arquiteto canadense Frank Gehry por 100 euros ou sua versão em tamanho original, por 769 euros. Com a marca dos mais importantes designers da atualidade, vende-se também talheres, relógios coloridos, câmeras fotográficas, abridores de garrafa, joias, entre outros produtos.

Apesar da inovação experimentada por muitas lojas de museus, a grande transgressora da categoria é, sem dúvida, a BlackBlock, do Palais de Tokyo. Com uma decoração que imita as lojas de conveniencia das periferias de Estocolmo, cercada de geladeiras com portas de vidro transparentes que deixam a mostra os produtos, ela é invenção do grafiteiro sueco André. O local funciona como um centro cultural. Uma das paredes é constantemente renovada com painéis e pinturas de artistas contemporâneos e não é difícil encontrar obras expostas entre as mesas do restaurante. Os clientes encontram um pouco de tudo no lugar, de barracas de praia a roupas. No entanto, o grande diferencial do lugar é a quantidade de objetos de arte expostos, como é o caso da chaise Eames, do artista plástico plástico parisiense Kolkoz, que sai por 1500 euros.

A variedade de itens que podem ser encontrados nas lojas dos museus de Paris é enorme. O Musée de l´Erotisme é um ótimo exemplo disso. Localizado em Pigalle, bairro do norte da capital e conhecido pela sucessão de sex-shops, oferece em sua lojinha uma série de bijuterias, histórias em quadrinhos, filmes, óleos e outros produtos ligados ao mundo do erotismo. E não é preciso atravessar nenhuma porta ornada com cortina de veludo vermelha e de maneira suspeita para encontrar o que se procura. Tudo em um ambiente cultural, que não chama a atenção e ainda por cima funciona até as duas da manhã.

Ainda mais insólita é a loja do Musée de la Magie, no subsolo de um imóvel do quarto distrito de Paris. Os iniciantes na arte da magia podem dar os primeiros passos adquirindo manuais em livro ou DVD e artigos para realizar os truques. O local tem ainda um espaço dedicado exclusivamente aos mágicos profissionais. Já a Correspondences, no Musée de la Poste, é o paraíso dos amantes da filatelia. Selos e objetos editados especialmente são vendidos ao grande público. No mesmo espírito, a loja da Monnaie de Paris oferece itens de colecionador para os interessados em numismática. É possivel até comprar uma Ordem da Legião de Honra, uma das mais altas condecorações dadas pela República Francesa. Apenas um problema, é estritamente proibido utilizar esse tipo de honraria se você não a recebeu oficialmente, o que normalmente acontece pelas mãos do presidente da França.

Localizado aos pés da Torre Eiffel e projetado pelo arquiteto francês Jean Nouvel, o Quai Branly abriga um acervo composto por máscaras, esculturas, vestimentas, ferramentas e uma série de objetos criados por tribos das Américas, Oceania, Ásia e África. A loja do museu é o paraíso para os apreciadores desse tipo de arte. Em suas prateleiras os visitantes encontram diversas peças de decoração inspiradas no tema. A apenas alguns passos do quai Branly, na lojinha do Museu Rodin pode-se comprar reproduções em escala reduzida de obras do artista como O Beijo. Outras miniaturas também são oferecidas, além de lindas fotos emolduradas, bolsas com desenhos exclusivos e joias inspiradas na coleção doada pelo escultor ao Estado francês antes de sua morte. 

Esculturas são o forte de outro museu, o Grévin. Nada de mármore, bronze ou ferro. Em um dos lugares que mais atraem turistas na capital francesa, a cera é o material que reina para formar réplicas exatas de personalidades. Na loja da instituição, que tem ares de um salão do início do século passado, o marron é a cor que predomina. Nas prateleiras ficam espalhados cartões postais, canecas e pequenos bonecos que representam os personagens expostos nas galerias. Livros contando a história do belíssimo Palais des Mirages completam os artigos à venda junto com peças de roupas estampadas com motivos que lembram o museu.

Sede histórica - O sucesso desse tipo de comércio não pára de atrair investidores. De olho no filão e após ver como a Printemps no Centre Georges Pompidou é quase tão concorrida quanto o próprio museu, um outro grand magasin parisiense se lançou no comércio cultural. A Galeries Lafayette controla atualmente duas lojas em lugares emblemáticos da capital francesa e não se arrepende da iniciativa.  O 107 Rivoli, extensão do Museu de Arts Décoratifs, fica ao lado do Louvre. A unidade segue o estilo de sua concorrente do George Pompidou, mas investe no luxo, uma da características da Galeries Lafayette. Com produtos que vão desde sapatos desenhados por Vivienne Westwood a objetos de decoração assinados pelos mais importantes designers da atualidade, o lugar reúne o que há de melhor.

Joias e bijuterias têm destaque nas prateleiras, e dividem espaço com jogos e brinquedos inspirados em diferentes épocas, como carrinhos de latão e peões. Utensílios de cozinha têm lugar especial entre as mercadorias. A exclusividade de algumas peças é outra das apostas do estabelecimento. Tudo com muito charme, é claro. Os mais de dois milhões de euros em volumes de negócios somente no primeiro ano da 107 Rivoli mostram o quanto a experiência é positiva do ponto de vista comercial. Tanto, que a Galeries Lafayette acabaram de abrir, há cerca de três meses, outra loja. Desta vez, o local escolhido fica ao lado de sua sede histórica no oitavo distrito de Paris, a Ópera de Paris.

O Palácio Garnier, como também é conhecido o suntuoso edifício, símbolo da música lírica da capital francesa, já tinha sua livraria especializada no gênero, mas agora conta com uma loja inteiramente nova. O lugar ainda tem o mérito de comercizalizar produtos exclusivos, como os abajoures em forma de bailarina, as taças de champanhe Baccarat gravadas com uma lira ou um vestido da marca de roupas infantis Bonpoint. Em breve, também devem começar a ser vendidos o famoso mel da Ópera de Paris, produzido nas colméias localizadas no telhado do edifício. E se o assunto é música, a loja da Cité de la Musique é uma das melhores na área. Mas separe um tempo de sua visita para vasculhar entre os mais de nove mil títulos dos mais variados estilos, com certeza você encontrará um tesouro entre as estantes repletas. As compras são acompanhadas, ainda, de uma trilha sonora da melhor qualidade.

 
LINKS