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No. 295 dezembro 2009/janeiro 2010
ENTREVISTA
José Vespasiano Assumpção

PARCERIA PELA BIODIVERSIDADE
Para o diretor da ONF, entidade francesa especializada na gestão de florestas tropicais, acordos firmados entre o Brasil e a França, na área ambiental em 2009, estimulam a reflexão internacional sobre os efeitos nocivos do desmatamento ao futuro do planeta

PAULA MONTEIRO


A
cooperação estratégica entre Brasil e França, no campo da ciência e tecnologia, ganhou um novo capítulo com a assinatura, em outubro, de dois importantes acordos fundamentados na questão da biodiversidade. Enquanto uma das parcerias visa o desenvolvimento sustentável do bioma da região amazônica, a outra possibilitará a repatriação de dados genéticos da flora brasileira. Essas iniciativas, que devem consumir investimentos da ordem de R$ 25 milhões em três anos, ganham destaque no momento em que a necessidade de se buscar maneiras de frear as mudanças climáticas e de reduzir seus efeitos nocivos ao planeta, no futuro, levou as nações a se reunirem em Copenhagen, na Dinamarca, para propor metas de controle das emissões de gases poluentes no meio ambiente.

"Gestora de seis milhões de hectares de floresta tropical, a Office National des Forêts (ONF) terá muito a contribuir á parceria entre os dois países, para a criação do Centro Franco-Brasileiro de Biodiversidade da Amazônia", afirma José Vespasiano Assumpção, diretor da ONF no Brasil. Em entrevista concedia à revista França Brasil, o engenheiro, que representa no país a estatal francesa especializada no gerenciamento de florestas, avalia a importância desses protocolos para o fortalecimento das relações bilaterais e à preservação da região que concentra uma das maiores biodiversidades do planeta. O perito em silvicultura fala ainda sobre a atuação da empresa francesa ao redor do mundo e sobre o tratado assinado com a Peugeot, em novembro, para a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) no Estado do Mato Grosso, em uma área de 1,8 mil hectares.

França Brasil - De que forma a ONF trabalha em favor do tema biodiversidade? Quais são os projetos mais atuais e significativos?
Vespasiano Assumpção
- Com mais de 11 milhões de hectares, a ONF é um dos mais importantes gestores de florestas públicas do mundo e desenvolve atividades em cerca de 60 países. Por outro lado, está totalmente envolvida na luta contra o efeito estufa, por meio da estocagem do dióxido de carbono (CO2) em plantios e dos mecanismos para se evitar o desmatamento e a degradação do meio ambiente. A ONF desenvolveu sua competência com base na reflexão internacional sobre as mudanças climáticas e na implementação de projetos de plantios florestais e de manejo sustentável de florestas nativas.

FB - Um acordo recentemente assinado pela França e pelo Brasil estabelece a criação do Centro Franco-Brasileiro de Biodiversidade da Amazônia.
Em sua opinião, qual é a importância desse tratado, não apenas para o desenvolvimento de novos estudos e para o fortalecimento das relações franco-brasileiras, como também para a preservação da própria Amazônia, hoje um dos maiores patrimônios naturais da humanidade?

VA
- Essa parceira é de suma importância para fortalecer a compreensão sobre o funcionamento do bioma amazônico em todos os seus componentes, visando sua preservação e seu uso sustentável. E sendo a ONF gestora de 6 milhões de hectares de floresta tropical da Amazônia, na Guiana Francesa, ela terá muito a contribuir com essa importante parceria.

FB - Outro acordo assinado entre os dois países visa repatriar dados genéticos de espécies da flora brasileira. Qual o significado desse estudo?
VA
- Essa troca de informação contribuirá para o uso dos recursos florestais - flora e fauna - de forma sustentável e para a preservação da Amazônia no futuro.

FB - A biodiversidade ainda é um tema pouco explorado no Brasil, gerando oportunidades para a biopirataria. O que o país perde com isso?
VA
- O Brasil perde por desconhecer o potencial dos produtos naturais que possui e, por consequência, perde economicamente por não explorar os próprios recursos.

FB - Como o senhor avalia a evolução do intercâmbio de conhecimento científico e tecnológico entre França e Brasil? A dinâmica dessa relação tem passado por mudanças?
VA
- Avalio de forma positiva e animadora. A sintonia no posicionamento político dos governos brasileiro e francês, no que se refere às questões ambientais globais, vem ajudando o fortalecimento das relações de parceria entre os dois países nos últimos anos.

FB - Qual sua expectativa quanto ao futuro das pesquisas na área de biodiversidade?
VA
- Estou bastante otimista e confiante no aumento da produção de pesquisas. Apesar de o processo de degradação ambiental ser muito mais rápido do que o do conhecimento da biodiversidade, atualmente a preocupação com a conservação do meio ambiente é global, sob pena de comprometer a qualidade de vida e a sobrevivência da raça humana. Isso tem criado um cenário favorável às pesquisas na área da biodiversidade.

FB - O que o senhor espera da parceria entre Brasil e França para a adoção de uma política comum visando soluções para o aquecimento global e a criação da Organização Mundial do Meio Ambiente? Acredita que as metas do governo brasileiro, de redução de 80% no desmatamento da região amazônica, e de 36% a 39% nas emissões de gases de efeito estufa até 2020, sejam factíveis?
VA
- Espero um resultado bastante favorável, pois tanto a França como o Brasil são, na atualidade, nações formadoras de opinião. Acredito sim que seja possível cumprir as metas de redução para o desmatamento da região amazônica e às emissões, até 2020. Vale lembrar que o Brasil tem um posicionamento confortável, no cenário mundial, sobre as emissões dos gases do efeito estufa. Primeiramente, porque a grande parte da sua matriz energética é considerada energia limpa (hidroelétricas). Segundo, porque o país detém a tecnologia de construção de motores a álcool, que é uma fonte de energia renovável. E por fim, o Brasil tem adotado políticas públicas para a redução do desmatamento e das queimadas, que são os fatores que mais pesam contra a imagem do país no exterior.

FB - Quais são os fundamentos e objetivos do acordo assinado entre a Peugeot, a ONF e o governo do Mato Grosso, em 2009, para a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) em uma área de 1,8 mil hectares na Fazenda São Nicolau?
VA
- O projeto Poço de Carbono Peugeot-ONF está inserido na região mais preservada da Amazônia mato-grossense, a qual mais sofre com o desmatamento. A política do governo do Estado do Mato Grosso para a região é a implementação de ações que visem a conservação, por meio da criação de reservas públicas e privadas e de planos de manejo florestal. Enfim, projetos que contribuam para a conservação da floresta. Nesse contexto, a Peugeot e a ONF estão dando sua contribuição e demonstrando, na prática, sua integração regional.

FB - Que papel caberá especificamente à ONF nessa parceria?
VA
- Para a ONF cabe a implementação do plano de manejo da RPPN e o fortalecimento das relações institucionais para atingir os objetivos da Reserva.

FB - Quais os investimentos previstos para a criação da reserva, e de onde virão esses recursos financeiros?
VA
- O montante não foi definido, até porque as atividades a serem implementadas ainda estão sendo estudadas. Sobre a origem dos recursos, ainda também não temos definição. No entanto, todos os parceiros, que tenham o mesmo objetivo e queiram contribuir, serão bem vindos.

FB - A reserva também integrará um projeto de "corredores de biodiversidade" ao longo do rio Juruena, promovido pelo Estado do Mato Grosso e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Qual será a finalidade desses corredores?
VA
- Promover a conectividade entre os fragmentos florestais para favorecer a conservação da fauna e flora.

FB - Quais foram os projetos já desenvolvidos pela ONF no Brasil?
VA
- Criada em janeiro de 1999, a ONF tem como objetivo os reflorestamentos para sequestro de carbono e a gestão de florestas. A atividade da ONF Brasil está concentrada na condução do projeto de reflorestamento Poço de Carbono Peugeot-ONF.

FB - O contrato para a criação da Reserva é decorrência do sucesso do projeto Poço de Carbono Florestal Peugeot-ONF na Amazônia, criado há dez anos? Quais foram os principais resultados alcançados nesse projeto até agora?
VA
- O contrato é fruto do amadurecimento e da consolidação do projeto Poço de Carbono, que proporcionou muitos resultados interessantes. Em linhas gerais, a iniciativa permitiu conhecer o comportamento das espécies nativas plantadas (silvicultura); monitorar o retorno de aves, mamíferos e insetos nas áreas reflorestadas; quantificar o estoque de carbono nessas áreas, assim como no solo e na floresta nativa e estabelecer uma integração com a comunidade local, por meio de programas de educação ambiental, da doação de mudas, da coleta de castanha-do-brasil, entre outras ações. Vale destacar ainda a parceria com instituições de pesquisa brasileiras e francesas, com trabalhos em diversas áreas, em programas de graduação e pós-graduação (mestrado e doutorado).

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