| VEJA NESTA EDIÇÃO |
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| No. 295 dezembro 2009/janeiro 2010 |
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GASTRONOMIA |
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TRADIÇÃO E SABOR |
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Considerada a melhor marca de caviar do mundo, a francesa Petrossian desembarca no Brasil em 2010 com o propósito de movimentar um mercado ainda pouco explorado no país, mas com grande potencial de crescimento no segmento de luxo |
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MÁRIO CÂMERA, DE PARIS, E LIGIA MOLINA
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"O caviar é uma das minhas principais paixões", afirma Armen Petrossian, proprietário da mais famosa marca da iguaria do mundo - a francesa Petrossian. Além do bigode cuidadosamente encerado e da gravata borboleta colorida, o considerado "rei do caviar" é reconhecido pelo entusiasmo com que fala sobre os mais variados assuntos, principalmente a respeito das ovas do esturjão, perpetuadas pela tradição de sua família na gastronomia de alto luxo. "Por mais inusitado que pareça, busco sempre transmitir as pessoas a minha admiração por essa especialidade", explica. Mais do que estampar seu nome nas renomadas latas azuis do produto, ele zela por todas as etapas de sua fabricação, o que inclui até o modo de consumo. "Primeiramente, deve-se comer o caviar puro. É a única maneira de distinguir seu sabor, aroma e textura", explica o empresário, durante uma degustação promovida em seu restaurante de Paris, o Le 144.
A história do caviar Petrossian teve início na década de 1920. Após a revolução russa de 1917, os irmãos armênios Melkoum e Mouchegh Petrossian migraram para a capital francesa, onde viviam os chamados Années Folles. As festas tomavam conta dos salões parisienses, frequentados por aristocratas, burgueses e intelectuais russos, que também fugiam do regime socialista. Os irmãos decidiram então importar o caviar - produto de luxo tradicional no tempo dos czares -, inaugurando posteriormente a primeira loja Petrossian, que desde 1920 mantém o mesmo endereç 18 bd de Latour-Maubourg, próximo à Esplanade des Invalides. "Lembro dos meus avós indo até São Petesburgo para comprar o produto que vinha do mar Cáspio. A viagem demorava dias", afirma. Quase cem anos depois, a experiência faz da Petrossian a primeira importadora mundial da iguaria.
"Talvez não exista ninguém que tenha o mesmo conhecimento sobre caviar", acredita o empresário, ao explicar que a empresa sempre foi 100% controlada por sua família, que resistiu às tentativas de aquisição ao longo dos anos. Esse ambiente é visível quando sua esposa, Cécile, interrompe a entrevista. "Você tem cinco minutos para falar com a vovó?", pergunta ao marido, que se levanta no mesmo instante para atender ao pedido. "Eles são assim. Pessoas simples e com uma ligação familiar muito forte", explica Bernardette Vizioz, coordenadora de Comunicação do grupo Petrossian, atualmente com filiais em Nova York e Las Vegas, nos Estados Unidos, e que, em março de 2010, inaugurará sua primeira loja na América do Sul, na cidade de São Paulo. Os detalhes sobre a nova unidade ainda são segredo, mas ele revela que será instalada em um shopping de luxo, totalmente financiada por um investidor brasileiro. "O contrato já foi assinado. Agora, precisamos acertar os últimos detalhes antes de anunciar o local e a data exata da inauguração", adianta.
Além de oferecer aos apreciadores as famosas latas azuis, a loja terá um espaço dedicado a degustação, um requinte em tempos de crise econômica mundial. O empresário admite que sofreu com as turbulências no mercado, mas garante que está "começando a se recuperar". Sobre a decisão de trazer sua marca ao Brasil, ele informa que a escolha foi "mero acaso". A futura unidade não é a única ligação de Petrossian com o país, nem a mais recente. Há alguns anos, em uma feira na Bélgica, ele se interessou pelo Pirarucu, uma das maiores espécies de peixe de água doce, encontrado na bacia amazônica. "Foi amor à primeira vista", relembra. A admiração foi tanta que o executivo saiu em busca de mais informações, primeiramente enviando um funcionário ao Brasil, depois visitando diretamente as barracas do mercado Ver-o-Peso de Belém (PA) - onde encontrou um criador disposto a importar o peixe para a França.
Relíquias gastronômicas - Hoje, no menu do Le 144, o Pirarucu é chamado de Araipama e preparado pela chef francesa, de origem senegalesa, Rougui Dia, responsável pela sua composição com o caviar. O sucesso da iguaria é grande. "Importamos algumas toneladas. É um bom produto, mas não é tão simples comercializá-lo. Queremos que as pessoas o conheçam melhor", explica. O peixe brasileiro é apenas mais um dos itens diferenciados oferecidos pela Petrossian. Além do tradicional caviar, a marca também aposta em outras relíquias gastronômicas, como o salmão defumado, o foie gras e as trufas brancas. Tudo comercializado com a aprovação de Petrossian, que preza pela qualidade.
Em relação ao caviar, o cuidado é tanto que alguns funcionários acompanham cada etapa de fabricação, envolvendo até mesmo a criação do peixe. "Enviamos um representante até o fornecedor para avaliar todo o processo. Vamos ao local para explicar como tudo deve ser feito", explica o empresário, ao afirmar que "o gosto vem antes de mais nada do peixe". Das entranhas do esturjão, as ovas são lavadas, para, em seguida, serem salgadas pelo chamado "mestre caviar", especialista que acrescenta a quantidade de sal necessária para definir a qualidade do produto. O processo inclui ainda o grau de aquecimento (cerca de 38ºC) das ovas, estabelecendo a consistência. A embalagem é o destino final antes da venda.
A inovação é uma das preocupações de Petrossian. Depois de lançar o Caviarcube - pequenos dados de caviar concentrado - o empresário trouxe de volta uma das versões mais apreciadas do produt o caviar prensado, extinto do mercado devido ao alto custo de produção. "Os produtores têm uma cota para a exploração do esturjão, devido às ameaças de extinção. Como são necessários de dois a três quilos de ovas para produzir um quilo de caviar prensado, não valia mais à pena investir no negócio", afirma. Com as novas técnicas de criação de esturjões em cativeiro - que também possibilitam retirar as bolsas de ovas das fêmeas e mantê-las vivas - o empresário decidiu oferecê-lo novamente aos clientes. A aposta é tanta, que Petrossian encomendou alguns quilos de caviar prensado de ovas de beluga, as mais caras do mercado. "Essa foi uma pequena loucura que resolvi cometer", conta, com bom humor.
Atualmente, criadores de esturjão em cativeiro são encontrados no mundo inteiro. Além dos tradicionais Rússia e Irã, ingressaram neste mercado China, Estados Unidos, Bulgária e até França, que tem seus principais viveiros em Bordeaux, a mesma região dos famosos vinhos. O empresário garante que o caviar é como uma boa cepa de vinha, ao afirmar que as ovas de cada peixe oferecem tamanhos, cores e sabores únicos. "Existem, no mercado, produtos que são de boa qualidade e outros nem tanto. Eu escolho os melhores. Meu objetivo é democratizar o caviar", afirma.
Mercado promissor - Encontrar o legítimo caviar francês no país, por sua vez, é uma missão difícil, mas não impossível. Em São Paulo, o le Caviar (www.lecaviar.com.br) oferece, desde 2006, produtos de sete dos mais renomados produtores da França. A decisão dos empresários Daniel Lecuona e Matilde Ghelfond foi ousada, mas apoiada em diversos estudos de mercado. "O caviar é extremamente delicado, estraga com facilidade e pode ser contaminado por doenças, como a salmonela. Mas não somos os únicos a enfrentar esta situação e não tivemos dúvidas de que o produto é promissor no Brasil", explica Lecuona, ao reforçar que o potencial é grande, pois apenas 20% do mercado é atendido. "Atualmente são consumidos entre 18 e 20 quilos/mês da iguaria. Pretendemos ultrapassar os 150 quilos nos próximos quatro anos", planeja.
Para isso, a empresa aposta na divulgação de conhecimento, com a promoção de workshops em restaurantes parceiros, de palestras em universidades de hotelaria e gastronomia, de cursos fechados e de caviar experience para os consumidores. "Em 2009, investimos mais de 10 quilos da iguaria para realizar degustações e envio de amostras, para que nossos prospects tenham a oportunidade de provar os produtos. Isso sem contar os recursos destinados a equipamentos, pessoal, treinamento e instalações de armazenamento que iremos inaugurar em 2010, prevendo um crescimento superior a 100% por ano", complementa o empresário.
Identificando o perfil do apreciador de caviar no Brasil, "como pessoas especiais, extremamente cultas, bem informadas e sofisticadas, independentemente da posição financeira", Lecuona diz que consumir o produto com conhecimento e sabedoria é algo que está acima do luxo e da sensação de poder. "O perfil do brasileiro é exatamente igual ao dos demais consumidores do mundo e a explicação para isso está na iguaria", considera, ao destacar a eficiência da técnica francesa de criação de esturjões, desenvolvida há mais de 30 anos. "O futuro do caviar está nas criações em cativeiro. Ao longo desses anos a França aprimorou processos nessa área que destacam a qualidade do produto francês em relação a de outros países", afirma o empresário. | |
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